domingo, 3 de dezembro de 2017

POR QUE TANTA PRESSA?



                                                               Cunha e Silva Filho


           Estamos em pleno domínio do mundo  entrelaçado com  a rapidez  instantânea dos fatos e  notícias – uma inflação de notícias verdadeiras ou fake (para dar um tom de uso corrente do termo no mundo atual) a que  com muito custo  tentamos digerir  ou digerir mal porque a tônica da pós-modernidade  em que estamos  engolfados  é a pressa e seu complemento, a realização  hic et nunc. Os dias, os segundos, os minutos,  as horas, as semanas,  os   meses e os anos passam  numa vertiginosa  rapidez que  nos provocam perplexidade. Por que tanta pressa? “Festina lenta,”  diz uma máxima latina. Não vamos morrer amanhã literalmente.
         Então,  por que tanta afobação, “passageiro  da agonia”  dos tempos que correm? Que mal existe em, pelo telefone, ou,  o que é mais usado,  pelo celular, comunicar-nos uma informação a um receptor distante ou dele recebermos uma  instrução  apressada que mal  dá tempo de captar algumas  palavras? Repetindo, direi mais: o mundo não vai acabar  amanhã. Você não vai  receber  um prêmio milionário de um bilhete de loteria. Pra que a pressa? Devagar, que chegaremos lá.
      O jovem de hoje quer por força estabelecer-se mal saído da puberdade. É preciso  ter tudo: muito  dinheiro,  casa própria, um carrão,  uma mulher bonita uma vida de  luxo. Calma, companheiro  de viagem. A vida não é isso o que pensa a sua pressa. Há protocolos  a cumprir,  tempo  de preparação e tempo de  amadurecimento  e de  realizações  benéficas.
      Se pensar  profundamente no título daquele grande romance de Ernest Hemingway  (1899-1961)– The sun also rises (1926) - , você verá  que a coisa não é tão fácil assim. Dê tempo ao tempo, pois, se for  crente em Deus,  verá que ao céu não  chegaremos  com tanta pressa  e  avidez de tudo  conquistar  tão cedo assim não é o melhor conselho que se pode dar  mocidade.. Relaxe, relaxe, relaxe. Você tem a vida pela frente. Os franceses dizem: “Il y a temps pour  tout,  pour le travail,  pour le plaisir.” Nem só de pão  vive o homem.
     Tempos modernos, pós-modernos, terceiro milênio – tudo converge para a ideia e a fetichismo  da pressa,  do chegar logo, de ser o primeiro,  o mais  belo,  o mais inteligente,  o mais sábio. Ora,  pensando bem,  o último  adjetivo  demanda tempo,  maturidade,   estudos,  dedicação  e  um espírito  aberto,  livre  e sem as amarras  e os modismos  que cercam  a juventude apressadinha e afoita nos seus  projetos, nas suas conquistas  pessoais  e profissionais. Calma, que Inês é morta. Tudo tem  seu tempo e hora.  Só a eternidade não tem  pressa. O mundo não se fez num só dia mas em seis segundo  as Escrituras. Terá Deus cometido  um grande  engano  de cálculo? Quem sabe...
     Talvez Deus devesse tê-lo feito em mais tempo. A pressa é inimiga da perfeição e não há ser tão cheio de defeitos  como o homem. E essa má qualidade   é responsável  por tantos  desencontros e incompreensões entre as pessoas sem distinção  de  credos,  raça e línguas. Por isso,  foram providenciais para a melhoria do ser humano, desde o nascimento, a  criação e  desenvolvimento  da cultura,   do saber,   das instituições sociais  e  políticas  quando bem  conduzidas  por homens  probos.
    Por que tamanha pressa,   projetos  a serem  feitos   do dia para a noite, se os podemos   realizar  com mais calma, com mais   precisão e solidez? Não, seguramente, a pressa, sobretudo, nos moços, não é uma virtude mas  uma  defeito e esse defeito  pode leva-lo à decisões erradas  de que , mais tarde, se arrependerá de tê-las  tomado.
     Somos seres incompletos,   somos uma obra in progress. A certa altura da vida isso é bem perceptível de compreender, mas, então,   não há mais tempo  para um   regresso  às origens de nosso  aprendizado na vida. Reverter o percurso  existencial  é-nos  impossível. A vida anda para  a frente no tempo e no espaço.  Essa incompletude  é uma fato  inconteste. Daí que a plenitude da vida  não passa de uma  vã  ilusão, de um ledo engano,  de um  passo errado ou de uma escolha  que nos levará  àqueles dois caminhos  propostos  no poema de  Robert Frost (1874-1963), “The road not taken”(1916).
   Julgo que é nesta fase de opções de dois  caminhos que reside uma grande parcela   dos acontecimentos de nossa existência, assim como  a dura  realidade   que se põe diante de nós: o que  conseguimos conquistar, uns com mais facilidade e menos tempo,  outros com mais sacrifícios e mais tempo, ou, como diria o meu pai,  com “sangue, suor e lágrimas.” É neste ponto  que uma via  de possibilidade  se nos abre  pela frente: o mundo  além da vida,   a dimensão  transcendental, a espiritualidade,  a vida eterna  sob as bênção  de Deus ou sob as malhas   tenebrosas  do Inferno, este sem  nenhuma possibilidade de remissão  porquanto virou  vazio  e nada. Aos eleitos a promessa de uma nova  vida no caso de serem  cristãos ou espiritualistas. Aos espíritas, a reencarnação, abrindo também uma possibilidade de aperfeiçoamento pessoal  em outras dimensões  da vida.
    A mocidade não quer  pensar nessas coisas  invisíveis. Acredita  no presente, no viço, na força, na energia física e mental,  na alegria de ser jovem e parecer eterno  enquanto dura. No entanto,  o sentido  profundo da incompletude  persiste no homem amadurecido e  descrente das ilusões  passadas. Há uma obra  abissal  de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima,1893-1983) que  discute  todas as fases da existência humana: Idade, sexo e tempo – Três aspectos da psicologia humana. (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1938).
    O livro do pensador católico  e grande crítico literário, a meu ver, tem ainda muitas  lições de vida a  oferecer o  leitor de hoje. Em alguns   aspectos, é claro,  envelheceu, uma vez que  foi escrita   para o  momento  em que  viveu, anos 1930, a sua contemporaneidade. Contudo,  como toda grande obra bem pensada, e com os recursos do conhecimento  e bibliografia     daquela  época,  o livro tem algo que se  projeta além do seu tempo e é justamente  na visão   avançada  do  autor,  ao refletir  sobre  as fases da vida  humana, que ele mantém  certa validade  de abordagem  dos  temas ali ventilados por um grande  escritor.
   Não é com tanta pressa  dos dias de hoje que  os jovens e a mocidade   resolverão seus  problemas  pessoais  e suas inquietações  de conquistar,  açodadamente  um lugar   ideal  que os  leve ao que se chama felicidade do mundo material. Para que tanta  pressa,  jovem,  se sabe que tem todo um caminho  a percorrer  a seu favor?
    
      
    

    
     

       

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

TRADUÇÃO DO POEMA "LES DIX PARTIES DU DISCOURS", AUTOR DESCONHECIDO





LES DIX PARTIES DU DISCOURS



Le plus maigre de toute la famille
A de sa race le plus l’estampille:
C’est l’article mince comme une fille.

Le nom se prélassee fait l’important,
Du domain des phrases il est roi tant
Para l’égoïsme que par le clinquant.

L’adjectif, son três humble satellite,
L’aCcompagne comme une ombre maudite
Ou comme sa chienne favorite.

Tel un proconsul romain, le pronom
Tient le haut rang de son maître le nom
Don’t il va sauvegarder le renom.

Verbe est l’exécuteur de hautes  oeuvres
De sa majesté  le nom. Mais il oeuvre
Souvent une trahison de coulevre.

Et fait de son  souverain son sujet,
Ou sa victime, aidé par son valet,
Le participe passé, grand suspect.

Comment agir voilà ce que l’adverbe,
Em sourdine ou  bruyamment, dit au verbe.
En mal, il peut changer l’acte superbe.

Enfin trois personnages en second:
Conjonction, officier de liaison
De l’État-Major général du nom.

Préposition, l’argent diplomatique
Qui decide de façon emphatique
Si l’on sera pour ou contre en pratique.

Et le clown, cet  inévitable fou:
Intejection: plein de bruit, de corroux,
Vide de pensée, pauvre bouche-trou.


  AS DEZ PARTES DO DISCURSO



De toda a família a mais magra
Da sua espécie e mais visível
É o artigo, delgado como uma donzela.

Tem ares de prelado o substantivo
Do domínio da frase é rei tanto
Pelo egoísmo  quanto pelo falso brilho.

O adjetivo, seu satélite mais humilde,
Qual sombra maldita
Ou como seu cão favorito o acompanha.

O pronome que nem um procônsul romano
De seu mestre substantivo ocupa a alta  posição,
Cujo renome salvaguardar vai.

De altas obras de seu executor
De sua majestade, o substantivo é o verbo.
Pois, por vezes, age como uma serpente.

 E  de seu soberano o lugar assume
Ou dele faz vítima por seu criado auxiliado
O particípio passado, grande suspeito.

Como fica, assim, o advérbio
Que, em  surdina,  ou barulhentamente, ao verbo fala?
No mínimo, ele pode o ato soberbo  mudar.

Por fim, três personagens auxiliares:
Conjunção, funcionário  de  ligação
Do Estado Maior geral do substantivo.

Preposição, o  agente diplomático
Que, de modo enfático,  decide
Se, na prática, seremos  prós ou contras.

E o clown, este inevitável desvairado:
Interjeição: cheia de bulha, de furor,
Vazia de ideias, simples figuração.

                                                    (Trad. de Cunha e Silva Filho)




domingo, 26 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU( CONCLUSÃO)




                                                                  CUNHA E SILVA FILHO



6. CONCLUSÃO


    È ponto pacífico que o Modernismo brasileiro foi o grande emancipador da literatura brasileira, sobretudo pelo que pôde realizar  e de atualizador da realidade nacional, aproximando-se, se não do povo, ao menos de nossos crônicos problemas sociais.
     Não é possível que a esta altura do desenvolvimento alcançado pelo país, posto que com  tantas desigualdades e injustiças gritantes,  a surrada questão  xenófoba possa tomar força entre defensores nacionalistas provincianos que não vêem  na troca de cultura a vantagem de países se beneficiarem mutuamente. O que seria reprovável é a completa passividade do povo em geral de só valorizar voluntariamente, ou por influência de um colonialismo  cultural ainda  arraigado  e reforçado  pelo globalização da mídia,   o que é de fora, sejam teorias modas, produtos ou lazer.
     Repensar o movimento Modernista a partir da perspectiva do povo, tanto como sujeito de nossa realidade como  voz narracional é um passo decisivo para integrarmos o movimento em suas raízes autônomas que pudessem continuar nessa direção o filão inaugurado por Manuel Antônio de Almeida, passando – por que não? – por Machado de Assis (1839-1908), Lima Barreto (1881-1922), Marques Rebelo (1907-1973), Antônio Fraga(1916-1973), e alcançando resultados brilhantes em João Antônio.
    Os conceitos de Modernismo e Modernidade não podem ser dissociados de pressupostos econômicos e culturais, mas também não são corolários indispensáveis ao desenvolvimento só pelo caminho do neoliberalismo. Entretanto, nos parece que os tentáculos neoliberais procuram instilar nos espíritos menos avisados que as premissas  da Modernidade devam sempre estar nas promessas da economia programada além  fronteiras. É possível ser moderno sem ser neoliberal e sem ser tampouco xenófobo.



7 . REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS.

1.ASSIS,  Machado de. Obra  completa.Rio de Janeiro:  Editora Nova  Aguilar, 1977. Org. por Afrânio Coutinho, V. III.
2.ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989. Série Tema, v. 9. Trad. de Lóror Lourenço de Oliveira.
3.BOURDIEU, Pierre. Contrafogos – táticas para enfrentar a invasão do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. Trad. De Lucy Magalhães.
4. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira.  3. ed. São Paulo: Cultrix, 1986.
5. BRASIL, Assis. História crítica da literatura brasileira.o  Modernismo. Rio de Janeiro: Pallas S.A., 1976.
6.COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura  brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro,, s.d.
7. EAGLETON, Terry.  Teoria literária – uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Trad. de Waltensir Dutra..
8. HOLLANDA, Heloísa  Buarque de. Pós-Modernismo e política. (org.).
Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
9.MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia – dos pré-socráticos a Wittenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
10. PORTELLA, Eduardo. Fundamentos da investigação literária.  3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1981.
_______. Confluências – manifestação da consciência comunicativa.  1. ed. Rio de Janeiro:  Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983.
11_____ et alii. As modernidades. Revista  Tempo Brasileiro, 84:5/9. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1986.
12. ____ et alii. Premissas e promessas da modernidade. Revista Tempo Brasileiro,130/131: 5/10. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1997.
13._____et alii. Qual modernidade? Revista Tempo Brasileiro, 111: 109/112. Rio de janeiro, 1992.
14._____et alii. Sentido(s) da modernidade. Revista Tempo Brasileiro,76: 118/127. Rio de  janeiro: Tempo Brasileiro,1984.
15. ROUANET, Sérgio Paulo et alii. Perspectivas da cultura brasileira no início do século XXI. Revista Tempo Brasileiro,  130/131: 83/103. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

16. THEODORO, Janice et alii. “América Latina”: visão especular. Revista Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (3)





                                                                           Cunha  e Silva Filho


5. MODERNISMO E MODERNIDADE



         Não só no campo literário como também nos setores institucionais, culturais  e econômicos, o país que pretende inserir-se era da modernidade deve  levar em conta um saber a ser construído tendo como condição prévia as  idéias de diferença, sob pena de se manter unilateralmente uma postura absolutista e autoritária. Esta postura assumida não pode ter por isso um caráter intransitivo.
       O projeto de modernidade brasileiro será eficaz na medida em que se abrir alteridade – a via de acesso à “vida do mundo.” Se, porém, limitar-se às imposições do discurso próprio e não admitir a travessia para o discurso diferente não se constituirá  em projeto solidário e democrático[5]
        Todo discurso autoritário esquece e anula qualquer argumento em contrário. Vejam-se,  no caso brasileiro, a era do Estado Novo, o longo período  da ditadura  militar com o apoio de faixas da sociedade civil. O discurso político brasileiro, mesmo nos períodos considerados democráticos, não se fez tendo como princípio diretivo o bem-estar coletivo do país,  a massa da  população. O desenvolvimento do país, quando houve, foi feito sempre por exclusão. A modernidade que daí surgiu teve sempre um sentido de incompletude. Os grandes projetos de desenvolvimento industrial, tecnológico, as reformas econômicas foram concebidas sem consultar as populações em nossas Casas Legislativas.
       Os dois últimos  governos federais que  tivemos, o de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, assimilando modelos de economias  advindos do neoliberalismo, são dois flagrantes exemplos de como o conceito de democracia se relativizou. O que esses governos nos impuseram, através de medidas  provisórias, alterou profundamente a sorte dos brasileiros, sobretudo dos mais desfavorecidos. Tudo isso se fez em nome de uma suposta modernidade de abertura do país à globalização da economia. Ora, alterações bruscas no sistema econômico, se por um lado alavancavam o país a muitas conquistas no campo   da economia do mercado, por outro lado essa modernidade deixava lacunas em que certas camadas da população ainda ficaram presas a modos de vida arcaicos e abandonados pelo Estado brasileiro.
          A melhor imagem que teríamos dessa modernidade abrupta  e intempestiva é a de um país que se tem construído por saltos e com tamanho açodamento que a realidade brasileira se torna um mosaico de realidades convivendo, até hoje,  ao mesmo tempo Primeiro Mundo com Terceiro Mundo, considerando aqui  essa divisão meramente de desigualdades e tempos  desencontrados ou assimétricos. Basta vermos  o que oferece o interior do país não só no Nordeste, mas no Sul e em toda parte, sem se falar das periferias urbanas.
          São populações que – é preciso enfatizar - vivem em tempos   diferentes e num país que se arvorou de chegar à modernidade. Aludimos aqui à coexistência de realidades sociais díspares. Por exemplo, convivemos ainda com  crônicos problemas : analfabetismo, analfabetismo funcional,  ignorância da população sobre benefícios sociais vigentes ou que, no vendaval das reformas, são retirados pelos governos,sem consultar os interessados. E não estamos falando de outros gravíssimos problemas  que permanecem  nos desafiando: violência, educação pública deficiente,  transporte coletivo insuficiente, saneamento  básico precaríssimo.[6] Essa situação assincrônica da realidade brasileira corresponde, no plano cultural, à  advertência de Eduardo Portella: “Com  a chegada da pós-modernidade corremos  o risco de sermos uma cultura pós-moderna sem termos sido moderna.”[7]
      Que modernidade é essa que permanece subserviente a  interesses de em organismos transnacionais que ditam o que bem entendem sobre a  realidade de um país do mudo, gerando mais miséria e um contingente cada  vez maior de desempregados? Que democracia é essa que vem a reboque das ditaduras econômicas? É nessa altura de nossa reflexão que percebemos a pertinência da interpelação lúcida do crítico Eduardo Portela:

 (...) para que serve a modernidade se não é capaz de reforçar a democracia? Se não  conseguir ampliar o campo da justiça social? Não se pode negar que o Brasil vem fazendo algum avanço âmbito da democracia real. Menos satisfatórios ou mesmo insuficientes, se  levarmos em conta cada vez mais a velha  e cada vez mais concentração de rendas, são os ganhos em termos de equidade social. (...) [8]
 
         Na esfera literária, os dois conceitos Modernismo e Modernidade para Eduardo Portella merecem ser melhor equacionados e compreendidos. O  ensaísta levanta, primeiro, uma questão moderno?”  O que sucedeu  ao verde-amarelismo não foi senão   ter descambado para ideários fascistoides?
       No pensamento do ensaísta o que seria mais saudável e proveitoso  à nossa herança cultural teria sido não uma cisão, mas um aproveitamento do legado romântico e a apreensão das novas contribuições que vieram somar-se àquelas oriundas do Romantismo, movimento cultural com amplas ressonâncias que vão até às vanguardas.
      A  realização plena e compensadora entre polos diferentes só se efetiva na convivência das diferenças, ou, como assinala Portella, no “... chegar  de coabitação fácil e frutíferas  convivências imprevisíveis e de intercâmbios simbólicos inabituais.” [9]
      Portella propõe três tipos de modernidade no quadro da cultura brasileira contemporânea, convivendo sucessivamente ou, segundo ele próprio sugere, simultaneamente: modernidades das nações, dos nacionalismos e das desnacionalizações. O ensaísta ainda fala de uma outra, a que chama de “derradeira modernidade.”
          Antes de se configurar como um povo com contorno nítidos o  brasileiro sofre o impacto catastrófico do anonimato e de uma realidade conturbada pela invasão das massas e presa fácil, conforme acentua o ensaísta, de manipulações.
         Retomando  a advertência feita anteriormente no mesmo ensaio ao afirmar  que os  podíamos cair no risco de sermos pós-modernos sem sermos modernos, Portella reclama por uma revisão crítica do Modernismo. Todavia, na concretização desse objetivo ele desqualifica a discussão por ele denominada peleja mesquinha entre mundialização dos mercados e mundialização dos valores. Nesse ponto, não vejo  como peleja mesquinha uma discussão  mais ampla entre duas realidades confrontadas pela Modernidade.
          A globalização afetará, sim, a universalização dos valores. Os males provocados pela economia globalizada neoliberal trazem no  seu bojo os  sacrifícios populações mais desafortunadas, sobretudo com o desemprego, a instabilidade no trabalho com o temor implantado sub-repticiamente    pela engrenagem dos mecanismos psicológicos, a miséria, a fome em gruas progressivos, assim como – e já estamos sentindo isso na pele em nosso país -  a redução do papel do Estado  como   responsável por áreas vitais como saúde, educação, formando um quadro social injusto e comprometendo as condições de vida no planeta.[10]
         Seria muito bom e tranquilo para os destinos da humanidade se a globalização e o universalismo na visão que nos passa Rouanet[11] tivessem na práxis os resultados por ele pretendidos. Não bastam só organismos democraticamente formados para decisões de foro internacional a fim de que soluções sejam encaminhadas convenientemente. O vetor da racionalização, para usarmos o termo desse ensaísta, ipso facto, não vai, posto que de forma duradoura, conviver pacificamente  com o vetor da emancipação dos indivíduos.
          A economia  - ninguém pode refutar esse fato – pouco está se importando com o comportamento humano, uma vez que o racionalismo    nela está assente  em fatores tais como lucro, risco e competição, os quais, por só, nada têm a ver com solidariedade e sentimentos piedosos...
       Portanto, o pensamento projetivo de Rouanet nos parece mais um objetivo de teor triunfalista e mesmo utópico, ainda quando procura atenuar conceitos como  globalização e internacionalismo ao defender  aqueles que lhe parecem mais apropriados ao entendimento da modernidade: autonomia e  universalismo. (Continua).

NOTAS:


[5] PORTELLA.  Eduardo (1984. Op. cit
[6] Este ensaio é uma versão refundida de uma  monografia escrita durante o meu Doutorado na UFRJ, em 1998. A perspectiva  histórico-ideológica se restringe à realidade do país das décadas de 1980 e 1990.  O tema desenvolvido se encontra ainda bem atual.  A  situação social, com  a economia em recessão, foi agravada profundamente. O resultado de governos mal  administrados e perdulários, entre outros  malefícios que nos afligem,  logo se fez  evidente na  escalada da violência.   A nação atravessou e está ainda atravessando  uma  fase de imoralidade política  jamais  vista  na historia política brasileira diante do pipocar de  escândalos de  corrupção governamental nos níveis federal, estadual e municipal.    Corruptores e corrompidos se deram as mãos  no enlace  fatídico e cínico entre o público e o privado. A senha entre público e privado passou a ser a propina, o dinheiro em malas, a formação de quadrilhas e a lavagem de dinheiro   no setor público aliado  a parte do alto empresariado  conforme se viu no Escândalo  do Mensalão, Operação LavaJato e tantos outros  surgidos atualmente no país envolvendo os governos Lula, Dilma, Temer, governadores  e políticos no exercício de seus mandatos.
[7] PORTELLA, Eduardo (1984), op.cit., p.6.
[8] PORTELLA, Eduardo (1986), OP. CIT., P. 5-6.
[9] PORTELLA, Eduardo (1997), OP. CIT., P. 7.
[10] BOURDIEU, Pierre. (1999).
[11] ROUANET,  Sérgio Paulo 1997). Op. Cit.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (2)





                                                                     Cunha e Silva Filho




 3. AS CONTRADIÇÕES: O NACIONAL E O ESTRANGEIRO.



        Nenhum movimento cultural é autônomo nas suas implicações e procedimentos. Portanto, quando reclamamos para o nosso caso uma literatura que reflita o nosso  povo e a nossa nação, tal premissa se exime de ser absoluta em si. Não há essa ideia de pureza e de primitivismo quando delimitamos nossa definição de nacional. Exatamente porque no nacional está implícita a tradição literária por via  da qual se transmitem as técnicas e formas  literárias do exterior.
      É preciso estabelecer com  critério  o conceito de nacional sem o preconceito xenófobo. Lembre-se aqui a oportuna  página de Machado de Assis contida no  ensaio “Instinto  de nacionalidade: O que de deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento  íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”[3]
       Sendo o Brasil um país de cultura transplantada e, depois, modificada a custo de variantes mesológicas, étnicas e culturais, a formação de nosso patrimônio literário esteve constantemente recebendo o influxo externo. Por conseguinte, o que aqui se formou foi acompanhado sempre do contributo de fora, primeiro pela influência  portuguesa,  depois, pela francesa e inglesa, sobretudo desta última ainda vigorante. Nosso primeiros homens  ligados à cultura tiveram formação europeia e de lá nos trouxeram as modas  literárias e as doutrinas  filosóficas correntes.
        Quando pleiteamos uma literatura nacional  não estamos  somente nos referindo à temática  local, mas também a fatores  intrínsecos que nos enformaram literariamente, dos quais, entretanto, vamos  pouco a pouco nos libertando por força de uma realidade nova.
     A escrita literária não se originou de um grau zero. Ela se insere no circuito de experiências e conquistas da tradição ocidental. Não fosse por isso, não teríamos nunca entre nós a contribuição de técnicas e descobertas no campo da poesia, da ficção e da teoria que já foram trabalhadas lá fora e, por via  indireta,  dos livros estrangeiros ou nacionais a que os autores locais tiveram  acesso.
     Recusar simplesmente a contribuição alienígena é praticar um ato de insensatez intelectual, sobretudo agora que temos à nossa volta a pressão do conhecimento globalizado via Internet.
     A grande incongruência que existe entre o nacional e o estrangeiro se coloca quando decorre no âmbito das instituições sociais e políticas, conforme se deu em nosso  pais, onde o pensamento liberal de estofo europeu se chocava com o sistema escravocrata do Império ou com  outros  procedimentos  de convivência social avançada apenas para inglês  ver. Da mesma sorte, em outros setores da vida social,  modas, hábitos, lazer, leituras etc.


4. O POVO COMO OBJETVO DE PESQUISA, MAS NÃO COMO SUJEITO PARTICIPATIVO


        Se o Modernismo brasileiro pretendia aproximar a realidade da literatura, não se compreende como, na primeira fase,  a iconoclasta, ele tenha se constituído do ponto de vista de recepção do leitor,  em movimento visceralmente elitista, principalmente no tratamento da linguagem  poética ou ficcional. Neste sentido, o Modernismo deu as costas para o povo, que não leu e ainda não lê a sua produção. Estamos pensando em obras seminais à compreensão desse movimento, como Pauliceia desvairada (1922), Macunaíma (1928), Pau-Brasil (1929), Memórias sentimentais de Joao Miramar (1924).
       É bem provável  que essas obras como outras apenas tenham despertado certa curiosidade no povo, porém não a iniciativa de efetivamente  realizarem  sua leituras, com exceção,  nos parece,  dos autores da ficção de 30, donos de uma literatura em geral sem hermetismos formais e,  por isso, mais acessíveis à média da  população. Haja vista a obra de Jorge Amado (1912-2001).
        Se o movimento procurou a todo custo fazer um balanço das potencialidades do homem  brasileiro, no sentido  até documental, nada indica que ele tenha se afastado de suas vinculações com a burguesia de então,  pelo menos nos seus primeiros  momentos. Quem iria dar efetiva contribuição, pelo menos como  propósito  de transformar o povo em matéria ficcional e, além do mais,  como  voz narrativa seria um contista, surgido na década de 1960 - João Antônio.[4]    
          Na sua ficção deu ele voz a seus personagens, a maioria  do submundo do eixo Rio-São Paulo. Porém, tanto os modernistas   quanto João Antônio, e bem assim  os ficcionistas da geração de 30, que inauguram o ciclo do de romances  do Nordeste, iriam se defrontar  com um  impasse inescapável à condição do intelectual que se vê enredado no dilema  de difícil superação: como lidar com uma literatura que fixa e movimenta uma galeria  de despossuídos que jamais lerão seus livros e não têm o nível suficiente  de escolaridade e de leitura  para se verem retratados nessa ficção marginal?
        Na época do surgimento do romance brasileiro, a partir do Romantismo, o público leitor pertencia em geral à classe burguesa. Por outro lado,  não se poderia  também recriminar um ficcionista à altura dos anos 1960, 1970  e 1980 –  caso de João Antônio e de outros autores  da sua época -  por fazer uma literatura centrada primordialmente nas camadas  desfavorecidas  da população  brasileira, assim como nos temas em torno da vida de malandros (figuras que fizeram do contista  um dos seus mais hábeis  intérpretes na literatura brasileira  moderna), marginais, prostitutas, traficantes,  não obstante   ser a ficção joãontoniana de alta qualidade  literária.
   Assim como não poderíamos reprovar  o fato de que ele se beneficiaria comercialmente dessa temática  populista, uma vez que  a obra ficcional produzida pelo mercado transforma-se em produto de consumo e, por vezes, faz de seu criador, se este provém de classe menos favorecida (exemplo  também de João Antônio) um instrumento do jogo capitalista, gerador de lucro. Da parte da função de escritor, a meu  juízo, não houve apelação ou expediente  espúrio de  explorar  temas que lhe granjeassem  ascensão social  ou  sucesso econômico. O escritor como intelectual é caudatário do sistema que ele próprio  repudia.
      Jorge Amado,   por exemplo,  foi um escritor que,  em determinada fase  de sua  produção literária, foi  duramente criticado  por alguns críticos por fazer  algumas  obras  para deleite do turismo e não por sua  qualidade  literária. Contudo,  essa crítica, sob pena de  se tornar injusta,  não poderia  estender  seu julgamento à obra geral dele. No exemplo de João Antônio, guardadas as diferenças  com  Jorge Amado, o nível  estético  de sua ficção  não sofreu   nenhuma queda.
      O contista não se  sustentou tão-somente com a temática  dos despossuídos,  já que ainda com  boa  qualidade  literária  passou  a explorar   temas da classe média, da qual era um  crítico  feroz  e demolidor, ainda que,  aparentemente  uma contradição,   a sua  nova condição social  o colocasse na classe média. Esse, na verdade,  é o dilema  de  qualquer escritor  que tenha vindo   dos estratos mais  modestos  da pirâmide social. Não importa,  burguês ou não burguês, o escritor  será um porta-voz, seja das classes mais altas, seja   das médias e das humildes. Uma coisa têm os escritores  em comum  no seu ofício: sua arma é a linguagem, não a baioneta.(Continua)




[3] ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: Obra Completa, p. 804. V; III.
[4] O autor deste ensaio defendeu, em 2002, uma Tese de Doutorado sobre João Antônio abordando  primacialmente  a figura do malandro no contista paulista. Título da Tese: O conto de João Antônio: na raia da malandragem. Faculdade de Letras,  Rio de Janeiro:  UFRJ, 2002, 349 p. Tese de Doutorado em Literatura Brasileira.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU





                                                              Cunha e Silva Filho


          

                                      

                   [...] O tempo é a época mais o horizonte diacrônico, o que significa dizer – é a época mais as  épocas. O isolacionismo espiritual do corte sincrônico, imobiliza, por amnésia e pela incapacidade de pre-ver. De enxergar que cada época carrega consigo outras épocas passadas e futuras.

                Eduardo Portella, Confluências – manifestações da consciência comunicativa, p. 26.



I.              INTRODUÇÃO


          Desenvolvemos neste estudo alguns tópicos subordinados aos conceitos de Modernismo e Modernidade no Brasil. Na primeira parte, procuramos discutir, ainda que de forma sintética, o movimento modernista brasileiro de 1922, realçando-lhe  a importância como marco fundador de uma nova  era para o Brasil literário, cultural e artístico.
                  Na segunda parte, discutimos os polos nacional e estrangeiro na questão da nossa identidade  literária. Na terceira parte, levantamos um dado de pesquisa que nos parece ainda não pesquisado em profundidade, que é o distanciamento do povo brasileiro como agente participativo do processo de transformação cultural e artístico desencadeado pelo Modernismo de 1922.
         Na última parte,  de forma mais  desenvolvida, estudamos  as implicações  embutidas nos conceitos de Modernismo e Modernidade em nosso  país. Esta seção do estudo visa a desenvolver algumas reflexões sobre os termos  modernismo  e modernidade partindo da leitura  de quatro ensaios de Eduardo Portella ( 1932-2017)[1] e  de um ensaio de Paulo Sérgio Rouanet.[2]

2. VALOR DA RUPTURA

       O projeto de uma literatura modernista para o Brasil não nasceu da noite para o dia. Seus vestígios remontam, sobretudo, à eclosão do Romantismo com a ideia de se inaugurar  também uma literatura que refletisse a realidade social, política e cultural, a exemplo do que ocorreu com a independência  política.
      A ideias de  separação do legado  brasileiro português teve então até o reforço original de José de Alencar (1829-1877) com a sua  tentativa de criar  uma língua brasileira que traduzisse o nosso  modo de produção  estética, sem as interferências ultramarinas engessadas nos lusitanismos lexicais, semânticos e simpáticos, gesto que seria repetido, no século seguinte, em pleno alvorecer do Modernismo,  por Mário de Andrade (1893-1945)), só que dessa vez de forma  radicalizada e que teve tantas repercussões para a delicada questão da linguagem literária no movimento modernista. E em todas  as suas  fases ou desdobramentos.
      O grande saldo  positivo do movimento modernista brasileiro foi o de atualizar os aspectos formais e temáticos da nova literatura om a realidade de um país que não podia permanecer imobilizado em práticas culturais e artística passadista. Ou seja, como  produzir literatura cm a camisa de força  de uma retórica artificialmente  objetiva ou subjetiva (estilo parnasiano, simbolista, fora os epigonismos  românticos  ou até  de períodos anteriores) num país que já passava por  transformações econômicas,  políticas e sociais que não mais admitiam a absolutização de verdades prontas e acabadas?
     Como manter-se uma ficção com bases ainda naturalistas  quando o século XX  já nos apontava para o freudismo,  o bergsonimo, o marxismo e com o surgimento  de profundas  alterações no universo das artes e das diversas manifestação de vanguarda com tantas consequências salutares à renovação   da cultura contemporânea?  Era  possível a essa altura do século XX  continuar-se indefinidamente  num mimetismo cultural só tendo vista para o passado e neste, infelizmente só vendo os aspectos imobilizados e não as suas  conquistas  inovadoras? Porque, no fundo,  todo movimento literário e artístico  avança um passo ao futuro, já que os movimentos não são estanques, mas se  influenciam  mutuamente  no seu dinamismo renovador a fim  de desbravar  novas formas estéticas.
    Mas, o sentido da ruptura entre  passado e presente, cujo marco simbólico foi a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, foi  principalmente  uma vontade de não mais parecer  com o que  se fazia literariamente em Portugal e em nosso país até então, tendo à frente a questão da linguagem, dos temas e das convenções dos gêneros literários.
     Os exemplos mais significativos dessas transformações e práticas literárias  podem-se ver nas obras de Mário de Andrade e Oswald de Andrade (1890-1954). Isso quanto aos aspectos  formais e revolucionários na produção poética e ficcional. Na temática o exemplo mais surpreendente em termos de tratamento seria a larga produção ficcional do romance de 30, inclusive pelo seu aspecto  de recepção por parte dos leitores.
   Veremos, no capítulo seguinte,  como  podemos resolver as contradições trazidas  pelos princípios da estética modernista brasileira tendo em vista os dois  polos de interferência cultural: o nacional e o estrangeiro. (Continua).





[1] Trata-se dos ensaios seguintes: As modernidades. Revista Tempo Brasileiro, 84: 5/9. Rio de Janeiro.  Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1986; Premissas e promessas  da modernidade. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:5/10. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997; Qual modernidade? Revista Tempo Brasileiro, 111: 109/112. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992; Sentido(s)  da modernidade, Revista Tempo Brasileiro, 76: Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1984.
[2] Perspectivas da cultura brasileira  no início do século XXI. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:83/103. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1997.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

INTERVENÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO JÁ!






                                                      CUNHA E SILVA FILHO


        O absurdo, leitor,  é a gente saber que   o Sr. Presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia,  junto com outros parlamentares estão fazendo   uma tour por alguns países gastando  inutilmente  o dinheiro  do povo brasileiro  em hotéis  luxuosos e  com diárias vultosas. Ninguém é idiota   para acreditar que  não estejam  fazendo meramente turismo  depois de votarem, a preço de  emendas  e outros    benefícios  concedidos  generosamente  aos deputados  que votaram  a favor  do   Presidente da República na  segunda  denúncia  contra ele. Enquanto isso, o Estado do Rio de Janeiro vive os  piores  dias de  violência sem limites  que já ceifaram  mais de uma centena de policiais  e de civis  vítimas de balas perdidas. Esta seguência de homicídios estarrece até os corações mais   empedernidos. A situação é caótica e se  espalha por  todo o estado fluminense. Até Niterói que,  durante  muito tempo,  era uma cidade calma   e praticamente  sem  violência, hoje  se alinha entre  o resto dos municípios  do Rio de Janeiro    infestado  por  bandidos  fortemente armados.
       Já é mais do que  hora de o governo federal  intervir corajosamente  nesse mar  de  desordem  social  provocado  pela alta violência  no Rio de Janeiro.  As lágrimas das mães  de policiais  assassinados e de mães de vítimas de assaltos e  de balas perdidas  continuam  sendo vertidas  diante  do estado de  impotência a que os moradores  do Rio  estamos    relegados. Estamos assustados até as entranhas.
    Não estamos  fazendo sensacionalismo irresponsável ou agindo como   faz a imprensa marrom. Os próprios porta-vozes dos órgãos de segurança   do Rio  de Janeiro   estão  repetidamente   ratificando   o que   aqui expomos   com o único   propósito de  contribuir para a diminuição  da violência, como cidadão   brasileiro  que  sou e que há tempos vem escrevendo  sobre o mesmo assunto de uma novela   trágica   que se assemelha a uma guerra  urbana  e se aproxima de alguns traços de guerra civil entre bandidos e bandidos e  de  bandidos  contra policiais  civis e militares.
       Não é possível que  os homens dignos deste país  que   exerçam  funções  de alta  relevância  no Estado  Brasileiro  nada  façam  contra   o estado   de gravíssima  ameaça que atravessa  o Rio de Janeiro – estado, de resto,  que,  a despeito de  ser  atacado pelo mal  tentacular   da  violência,  ainda    se defronta com   as finanças arruinadas por facínoras   que exerciam  altos cargos nos dois mandatos do governo  Cabral, sendo este  preso  por  múltiplos crimes  contra  as finanças do Rio de Janeiro que    provocarem   sofrimento,  dor,  fome  e desgraça  material  e  psicológica  no seio dos funcionários   estaduais, os quais  ainda  vivem  às voltas com  o atraso de seus salários e sem perspectiva  de um  luz no túnel.
       O que as Forças Armadas  têm feito  foi oportuno, mas está longe de   preencher  as lacunas   de medidas  gerais  (não pontuais)  a fim de   estrangular   os focos  de vendas de drogas  e  de uso  de armamento  pesado que chegam às mãos dos  marginais  com facilidade  e em quantidade assustadora  causando  espécie  a quem  observa atentamente  o desenrolar  dessa  selvageria   e derramamento de sangue  no Rio de Janeiro.
    Diante desse quadro   abominável  por que passa  os habitantes   do estado fluminense, sobretudo na capital,   urge  uma  intervenção federal  imediata, doa a quem  doer,  tanto  no governo   do Sr. Pezão quanto  no comando  geral  da Polícia  Militar,  a qual  não está dando  conta  dos  urgentíssimos problemas que se colocam   diante de vulnerabilidade  da sociedade  civil.
     Não me venham com  teorias   acadêmicas   e  ineficientes, além de  abstrusas  à compreensão do cidadão comum a fim de   resolvermos  a deplorável situação   que se nos apresenta. Precisamos  é de  ações afirmativas,   sem subjetividades  nem  justificativas  atinentes  a condições  sociais  e de  direitos  humanos. Sejamos realistas. Para isso, temos já algumas leis  que, se aplicadas com rigor, muito  agregarão  ao abrandamento  da atual situação  anômala  com que convivemos  num salve-se quem puder e à base da lei da sorte, de não  estarmos no lugar e hora errados  para  que uma atrocidade  possa   ocorrer. Ninguém, nem os  habitantes das favelas, nem  a classe média, nem a classe média alta,  nem  as elites  econômicas, nem  as autoridades  estarão  imunes  a essa violência  crescente  e sem  peias.
     Por isso,  só  vejo, pelo menos,   duas saídas para essa crise  inominável. Primeira,   o governo federal  deve  de imediato  traçar  a composição de  uma força-tarefa  que possa  estancar  todos as possibilidades de entrada de  armamentos e drogas em  nossas fronteiras  terrestres,  marítimas e aéreas. Já que não nos encontramos  em guerra contra país algum,   as Forças Armadas,  com todo o seu   conhecimento  e inteligência, além de armamento  pesado, logística,  estratégias bélicas,   bem pode,  sem abdicar de suas funções  básicas,  travar uma guerra sem trégua contra  a bandidagem  que nos vende armas e munições  clandestinas além de drogas.  Ao estancar  todos esses pontos prováveis e improváveis,  em que   armamentos e munições possam  penetrar em solo brasileiro,   as  Forças Armadas, a Polícia Federal,  a Polícia    Rodoviária Federal,  em trabalho  conjunto  e com  o apoio também  das polícias   militares e civis  de todo o território nacional, sem dúvida  resolverão  significativamente  os males da violência  e das drogas ainda hoje em plena expansão  pelo país afora.
     Segunda saída: livrar  os morros  e os asfalto  do tráfico de drogas e de armas seria um passo   decisivo, inclusive,   prender  o consumidor de drogas pego em flagrante nas bocas de fumo. Neste caso, que se faça valer a lei que  proíbe  a venda e o uso de drogas. Outra possibilidade,  caso seja recalcitrante, que o usuário   seja encaminhado  a tratamentos  do vício.
     Por outro lado,  essas sugestões  que  apresento só teriam maior eficácia   com outras medidas paralelas  tomadas  pelos órgãos de segurança: a fiscalização  por agentes  policiais   de alta competência  e seriedade   em suas funções e bem remunerados Eles seriam  pessoas-chave   a fim  de  verificar   o  mau comportamento  de policiais, a chamada banda podre,  tanto da polícia civil quanto  militar. Da mesma forma,   seria preciso que  valorizássemos as polícias civis e militares  com  bons salários e constituída  de  homens  bem  trenados,  com boa escolaridade e com condições  materiais  e humanas  d para exercerem  suas funções e ganhar o  respeito da sociedade. Sem uma  polícia  respeitada pela comunidade em geral,   não teremos    chance de  melhorar   a violência  no país.
      É obvio que tudo isso  exige grandes  aportes financeiros dos Estados  brasileiros. O Erário  Público tem  dinheiro e só não  o utiliza  corretamente  porque  as políticas  públicas  andam  erradas e andam erradas  porque  a estrutura  política está   carcomida,   degenerada e  perdeu  o  total  respeito  do cidadão  brasileiro.
      Repito: o  Rio de Janeiro  não pode  esperar  para ver  sua   degradação  absoluta  e irreversível. A atual  conjuntura  nada tem mais a oferecer  senão  a indiferença com que tem tratado  os mais  graves  problemas  de que  um  Estado brasileiro  poderia  ser vítima por duas razões principais: a) porque  governos   do PMDB e aliados,  em três mandatos ( o Sr Pezão é o continuísmo  da  tragédia  provocada por Cabral e seus asseclas),  quebraram  sem piedade  com rapinagem  as finanças  públicas do Rio de Janeiro; b) porque  o governo federal  ainda se mostra  indiferente com a sorte    dos que moram  e escolheram  morar   no Rio de Janeiro –  hoje palco de uma tragédia shakespeariana. E essa indiferença do governo  federal  tem  causas  de natureza  político-partidária, o que, em última análise,  configuraria  mais  um ação  irresponsável  dos homens  em  Brasília.

      

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A ERA DO "FORA..."




                                   Cunha e Silva Filho


       Há um sem-número de explicações  para a sociedade ou parte da sociedade civil indignar-se nos tempos atuais, ainda mais   instrumentalizados que estamos com  recursos das várias mídias  que nos cercam  globalmente. Esse é, sem dúvida, um fenômeno  social diante  do que se ouve, se vê e se comenta,   sobretudo  de governos  e instituições que não estão atendendo  às massas em conjunto.
       Contudo,  concentremo-nos no  exemplo brasileiro dos últimos  anos, quer dizer, aproximadamente dos  governos da chamada era Collor até nosso dias. Todo esse longo período se caracteriza por manifestações, passeatas e protestos  contra  os sucessivos  governos federais, sobretudo.  
       Essa era dos “Fora” – palavra  de ordem  vista em cartazes não só no  Brasil mas em vários países do Ocidente,  do Oriente,  de vez em quando,  através  do clamor das suas populações, demonstra a insatisfação e  a   repulsa por  dirigentes  que não mais comungam com os interesses de vasta parte  da sociedade.
      O tempo da passividade dos povos está desaparecendo da vida planetária e os dirigentes das nações devem atentar para essa mudança que está a caminho à medida que a civilização  vai amadurecendo e tomando  consciência  dos  seus problemas e de sua cidadania. Mesmo em países não democráticos  algum dia  essa mudança  tenderá a  acontecer.
      Tenho  convicção  de que  os mecanismos   de repressão ainda estão muito  firmes  e prestes para  agirem, porém haverá tempo  para  mudanças. A liberdade dos povos é inegociável. Não há felicidade  sem  a liberdade  de expressão,  de ir e vir.  Por isso,  é indesejável    e revoltante  a censura de qualquer natureza, principalmente a censura contra todas as formas  de representação  artística.     
   A insubmissão, na maior das vezes,  sintetiza  uma situação geral, fruto   de arbitrariedades,  de autoritarismos  e  da percepção coletiva  de que  governantes   agem mal,  governam  mal  ou  submetem  o  povo   à aceitação  de suas desídias  e de seu  arbítrio. Tanto pode ocorrer em  países não democráticos como  em países  disfarçados de democracia  ou  mesmo democráticos, porém  praticantes de  ações   que desagradam  os direitos  dos povos. A força  das massas hoje é muito mais  atuante e coesa, a despeito das divergências   de tendências  ideológicas,  contra   atitudes  discricionárias  de mandatários.
    Em parte isso se deve às mudanças operadas nos meios de comunicação,  hoje  dominados pela era  digital,  pelos compartilhamentos   de usuários de redes sociais,  como  a o Facebook,twitter, o e-mail, o whatsAp, o utube,  e outras formas  de comunicação   instantânea, todas praticamente  interligadas. Ideologias e contraideologias se veiculam  em cifras de milhões de usuários dessas redes.   Por assim dizer,  o Facebook, hoje,  virou um verdadeiro  fórum  de  interlocução em vários níveis e segmentos  sociais,   e culturais.  Escritores,  pensadores,   intelectuais dele fazem uso  para  divulgar  seus trabalhos, suas obras,  suas ideias. 
   Se há  um lado  hedonista,  narcísico e muita  futilidades e exibicionismos  idiossincráticos,   esse canal  nacional e  internacional  de comunicação instantânea  tem  muitas vantagens e é um   incontestável  incentivador cultural.  O que é mais:  tem um  alto alcance democrático. Todo mundo nele  pode opinar,  mostrar  seus talentos,   suas produções  na ficção, na poesia,  no ensaio etc.,  ou ainda remeter  as pessoas  a outras espaços virtuais:  blogs,  sites,   vídeos etc.   
      O Facebook tem, assim, uma função social   de alta pertinência: agrega  pessoas,   aproxima-as entre si,  é interativo  e uma saudável  maneira  de melhorar  as relações afetivas. Os laços  de amizade. Se for  usado com  moderação, sem    se tornar  um vício e uma dependência, a sua finalidade possui mais  qualidades do que defeitos e é uma  grande ferramenta   no desenvolvimento  da habilidade escrita  do usuário. 
      Em consonância com  esses tempos planetários, eis um assunto  que perpassa   a vida cotidiana do brasileiro às voltas  com tantos escândalos provenientes de ações e comportamentos governamentais   indecorosos, imorais e  aéticos gerados no epicentro dos poderes  executivo, legislativo e até judiciário segundo podemos  confirmar  o fato pelas  críticas acirradas de diferentes  segmentos da população brasileira. É notório  ressaltar que  não podemos  tampouco   desconhecer   estar a nação  um tanto ainda  dividida ideologicamente sem que sinais de um entendimento  comum maior  sejam apontados no horizonte das incertezas  em que todos estamos    mergulhados.
   Por outro lado, não podemos  esconder  uma  constatação:  os opositores  extremados  do PT  não se deixaram  enganar  pelo atual  governo  Temer  em que pese  estar parte considerável da mídia,   escrita televisiva ou digital  anunciando   melhoras  para a economia que, segundo  a equipe do governo e o próprio  presidente da República, está nos trilhos  e em franca  expansão. No entanto,  essa é uma meia verdade porque não é  só a economia    que leva um governo  situação de melhoria.  De nada adiante ter-se um governo  com recurso   se  esse não é logo  canalizado  a reverter  os graves  problemas que  enfrenta em setores  de grande relevância à normalidade  de uma país: a saúde, a educação,  o transporte e, no nosso caso,  a segurança.  Não é apenas  economia supostamente  melhorada   fator determinante  a um governo   de bem-estar social. Vejamos adiante  que fatores são  determinantes  para uma país saudável  e feliz.
     Comecemos pelo próprio  fundamento   da estrutura  política  do Brasil fazendo algumas  indagações nada despiciendas: Como pode um  governo  sustentar-se à custa  de  ações do executivo  que  o desabonem moralmente, como   o escândalo  que ora  está acontecendo no seio  do legislativo  em consonância  com  o executivo? É digno de manter-se um presidente que  compra  partidos, melhor dizendo,  parlamentares,  com  emendas  vultosas,  cargos,  benefícios (o que é, ipso facto,    mais  uma manifestação  da corrupção e, por conseguinte, mais agravante  e perniciosa) a fim de ganhar/mercadejar despudoramente  votos  para  se manter  no  poder a todo o custo, votos que  livrariam  o  chefe  do executivo  das denúncias  de   corrupção  e escambos  de propinas, porquanto a passiva é uma  modalidade  de  propina. É lícito  que um presidente da República  mantenha, na cúpula de seu governo,  pessoas   investigadas  por corrupção?  É legal  que  o detentor do maior cargo da nação   concorde com   propostas  de  mudanças  na Previdência (sobretudo  na questão  do tempo de aposentadoria)  e nas leis trabalhistas  que  resultem  em  perdas de direitos   adquiridos  em longos anos de vigências de leis  de amparo  aos aposentados,  pensionistas e trabalhadores  em geral? É  honroso que um  presidente  faça  vista grossa  permitindo que  leis escravocratas  sejam  aprovadas  e provoquem  retrocessos   abomináveis, com repercussão negativa   em organismos   internacionais,   na área trabalhista,  mudanças estas  que, se aprovadas,   instituiriam no campo  o trabalho-escravo (!) em pleno século  XXI? Infelizmente,  essa escabrosas tentativa   de aprovação   dessa lei, dada a repercussão  negativa que teve, não vingou.
     E mais, tudo isso para  conseguir  votos suficientes    de  parlamentares   ruralistas    para  evitar  a  o afastamento e cassação de um presidente  com  quase nula aprovação  popular? O expediente, a meu ver, de  exonerar, ad hoc,  ministros aliados do governo  com o objetivo único  de aumentar  a lista de votantes  contra a denúncia que pesa sobre o presidente é, no mínimo,   imoral. Tais  atitudes  do governo federal, por si sós,  seriam  suficientes  a fim de que  ele tivesse o mesmo  destino  da Dilma, ainda mais  tendo em conta que  ele foi vice-presidente  dela, esteve com ela em campanha para a presidência,   fazia, portanto,  parte do governo petista e ainda por cima, pertence a um partido que, historicamente, não é flor que  se cheire, sendo, talvez, mais  repudiado do que o   próprio PT.
     O avanço  da economia de um país   só seria   oportuno e bem-vindo se fosse acompanhado  de reais   mudanças de condições  da vida  do povo. Um país rico não significa necessariamente um  país  com  igualdade  e justiça social,  com segurança  e  ausência de corrupção. Tampouco  um país rico significa  ausência de impunidade porque a riqueza  pode ser fruto  da impunidade e só vai servir  a minorias  privilegiadas. Isso pode ser visto  em países como os Estados Unidos,  onde há também  miséria, violência  e outros males sociais.
    A riqueza econômica,  se beneficiar só os milionários, não será  plenamente democrática nem faz um povo feliz.   É preciso que o todo  da estrutura  política   e das instituições  de  um governo, de sua máquina administrativa   sejam  efetivamente   abrangentes  e harmônicas  na distribuição    da riqueza nacional.  Isso não se concretiza  se há pequenos grupos   sociais  que detêm  essa riqueza. A riqueza   que se distribui  a  uma minoria  de milionários é causa também  da indignação,  da  violência e da pobreza.    
     Há um fator determinante  da felicidade de uma nação que é  inarredável   do salto  qualitativo  ao bem-estar  de um país: a educação. Assim se deu com  o Japão e com outros países que  investiram maciçamente  no ensino,  com  professores valorizados, com ensino de alta qualidade,  com  universidades públicas  funcionando  plenamente e com autonomia, com boas  escolas  públicas  do ensino fundamental e  médio. Em todos os níveis de ensino devem elas ser protegidas  pelo  governo  federal, para isso  prestigiando    muito o Ministério da Educação.
    Tais universidades públicas (federais ou estaduais, devem ser transformadas  em centros  de alta  produção do conhecimento  humano e com  elevado padrão  científico-tecnológico.  Ao lado da educação seguem-se   os cuidados   com  a saúde pública, o funcionamento dos hospitais com profissionais com da área médica ou paramédica  igualmente valorizados,  atualizados,  com um  quadro administrativo  competente, valorizado  e vocacionado  para  as suas  diversas   funções, com a segurança pública ( polícia militar, polícia civil, guarda municipal, corpo de bombeiros)  que tenha o respeito  da população e  seja remunerada   à altura das suas relevantes  funções  de proteger  a sociedade e, finalmente,  que  o país seja servido  por  um transporte  de massa eficiente,  atuante,   seguro, confortável  e digno  da aprovação  do cidadão   que dele  necessite  para  locomover-se de casa ao trabalho ou vice-versa. Seriam essas conquistas sociais utópicas? Não.  Tudo isso depende  do nível de  moralidade, competência e   vontade   de um  governante  comprometido  civicamente em servir  seu país  e seu  povo. 
     As múltiplas deficiências do Estado Brasileiro são responsáveis  por todas as nossas mazelas. Se os quadros políticos  não  se derem ao respeito, se não saírem  dessa  desordem   geral em que estão afundados, se não houver  uma mudança radical   em nosso sistema   de eleição   que venha impedir  a continuidade   dos velhos e abomináveis  hábitos  políticos,   do compadrio,   do nepotismo,   do corporativismo   execrável, do número  excessivo  de  parlamentares, da procura  da política  para benefício pessoal ou de grupos,  do  lobbysmo e de outras  podridões  infestando  o nosso sistema  político,  não daremos um  só passo  em direção a uma   nova  política  brasileira  voltada  para a sociedade  e sobretudo para os que mais sofrem com decisões e ações  dos governos, os desassistidos do poder público: pobres, marginalizados,  analfabetos,  aposentados    e pensionistas   que recebem  minguados   vencimentos e passam a velhice   privados  de tudo.

   Se no país há ainda tantos privilegiados  pelo poder público,  há milhões que precisam  de mais justiça, saúde,   hospitais, mais transporte   e – por que não? – melhores proventos  de aposentadoria. Se considerarmos  o  nível  de reda dessa  população  desfavorecida,  não poderemos   afirmar  que  somos uma democracia.  Longe disso.