segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O PAÍS QUE SEMPRE ADIA

                                     


                                                                    Cunha e Silva Filho


     A quem  já viveu uma boa experiência de vida, lembro aqui de uma crônica exemplar de Paulo Mendes Campos (1922-1991) falando sobre o espírito protelatório do brasileiro. Nem me recordo mais do título, mas ela é muito atual para os dias que vivemos no país Concordo em gênero número e grau  com  o  apreciado  cronista, jornalista  e poeta brasileiro. Repare o leitor se o cronista não estava certo. Darei    como exemplo  o  setor  da segurança  pública    do Rio de Janeiro. 
      Veja-se o que a ação protelatória   fez com a segurança  pública  desse estado da Federação, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro. Aproximadamente,  pode-se afirmar que  há trinta anos  os cariocas  começaram a sentir  na pele as consequências severas  da violência que de então ate hoje  só tem  crescido ao ponto de o governo  federal  ter tomado  a difícil decisão de nomear um interventor militar, o general  Braga Neto,  para ser comandante-em-chefe,   com   todos os poderes  de sua função,  da segurança  fluminense.
    Eu diria que o passo dado pelo governo federal só foi  dado  porque a escalada   da violência  chegou a tal  ponto  que o próprio governador  Pezão  houve por bem  pedir socorro ao Presidente da república  alegando  que tinha perdido  total  controle  da alarmante   e caótica desordem  social que se instalou no asfalto e nas favelas por traficantes  de drogas s e meliantes  oportunista.
    O ponto máximo  de grau de violência e barbárie  localizou-se  em pleno carnaval  carioca. As imagens, na zona  sul, de facínoras armados com fuzis  atirando  em várias  direções,   um  policial civil sendo quase  massacrado por um bando de bandidos,  uma senhora  idosa sendo  caçada numa   calçada da zona sul  e imobilizada por  criminosos que lhe tomavam tudo   que lhes parecesse valioso e outras cenas  de selvageria como arrastões,  furtos, assaltos em diferentes  lugares do Rio de Janeiro  foram a gota d’água a  fim de que o governo federal  acordasse de um longo  sono  pesado  para a realidade nua e crua  da vida carioca de hoje.
   Agora, me pergunto: por que não se  tomou  essa decisão  muito  tempo atrás? Sabia-se há tempos que o Rio, tal como São Paulo e outras cidades pelo país afora,  já vinha dando   evidentes e sobejos sinais de que  a coisa estava ficando preta  para os brasileiros de todas as classes. Pelo Rio de Janeiro, o Estado,   passaram vários governadores ( Moreira Franco, Brizola, Garotinho,  a mulher do Garotinho,  Benedita  da Silva,  Sérgio Cabral e Pezão) e, no mandato de cada um deles,  o Rio de Janeiro  já vinha  sofrendo  as consequências de uma segurança  pública   mal conduzida. 
      Medidas contra  a violência  não nego,  foram  tomadas, mas nenhuma delas surtiu  efeito positivo  relativamente  à segurança  que  teimava em  se manter  cada vez mais ameaçadora Implantaram-se as UPPs porém estas foram  fogo de palha,  porquanto  a violência nos morros  recrudescia e,  no varejo,  vieram as balas perdidas matando  crianças, jovens e adultos  decorrentes dos confrontos entre facções criminosas, milícias ou entre forças de segurança pública e meliantes em geral.   
  O fato é que a violência ascendente atingiu tão magnitude que seus agressores  passaram a  mandar e desmandar  nos morros e favelas, de todos os cantos  do Rio de Janeiro. Nessas comunidades começou a imperar  a lei dos chefes de quadrilhas cada vez mais bem armadas e, em muitos casos,  bem superiores às   dos policiais civis e militares. 
   As favelas e os morros  deixaram de pertencer a um país com ordenamento  jurídico para se definir como   “cidades paralelas” “governos paralelos,” “cidades partidas” - enclaves  com as suas leis próprias e draconianas, “olho por olho,” “dente por dente”, ou seja, pena de talião. Seus modos de vida em flagrante  dissociação  com a vida no asfalto. Nesses  enclaves manda quem  tem mais, império da   força  bruta e das armas, lei do cão,   “cidade de Deus,”   lei do silêncio, em convivência  tácita   à revelia  da estrutura do Estado Brasileiro. Desobediência civil ampla  e irrestrita.
   Ali só entra quem  passar por uma revista  de homens armados. Quem desobedecer  a seus esquemas  sofre pena capital. Ali os serviços de luz, gás e outros  só funcionam  se passarem  pelas mãos de um chefe de quadrilha, traficante ou miliciano, ou melhor, quem  esteja com o poder  nas mãos sempre sujeito a ser substituído  por outro bando de criminosos  invasores  e vitoriosos  na batalhas entre  marginais. Ali poucos viverão  uma velhice feliz. Quase todos morrem  em plena adolescência, ou  ainda mocidade.
  Muitos  dos que  vão ajudar seus chefes são analfabetos  funcionais ou  senão analfabetos. Os que se rebelam contra esses  chefes de tráfico são expulsos ou mortos. Não há meio termo. Não há diálogo. Os dedos-duros são penalizados mortalmente. Há tempos a pena de morte ai  se tornou consuetudinária. Ninguém escapa  dos algozes. A solução para tudo ali  só se resolve com um tiro na testa, sem julgamentos nem tribunais,  nem  promotores nem  defensores, nem jurados, quanto menos  juízes togados.  
   Perdidos para sempre  são essas gerações  esquecidas dos poderes  públicos, vivendo vidas relativas  e  temporárias,   ao arrepio das leis do Estado Brasileiro. A intervenção das Forças Armadas, acima de ideologias  e partidos políticos,  é um  dever  das autoridades e, para mim,  é um ponto de partida. Já é um começo da batalha contra a violência tentacular e covarde  que angustia e cobre de luto  a sociedade  carioca.
       


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

POR UM RIO DE JANEIRO MAIS CARIOCA



                                                                   Cunha e Silva Filho



         Considerada internacionalmente como uma cidade  de belezas  deslumbrantes, lugar  obrigatório do turismo  estrangeiro  e nacional, o Rio de Janeiro, a “Cidade Maravilhosa,”  tem sido castigada  severamente  por uma onda de violência  fora de todos os limites imagináveis  se comparados  com  o seu passado tranquilo de um povo dado a festas, folias, pândegas,  samba e animado futebol, entretenimento variado e a uma  vida  plena  de alegria e convívio ameno  e acolhedor. Em 1964,  quando  vim para o Rio de Janeiro,   ainda havia   essa tranquilidade, esse sossego que, hoje,  é coisa do passado. Eu podia chegar  em casa altas horas e não sentia medo algum  de ser assaltado. Hoje isso é uma temeridade e os cariocas se enfurnam  em suas casas ou apartamentos  deixando,  muitas vezes, de sair  de casa,  de ir a um teatro,  cinema ou  qualquer  show anunciado, de andar sozinho num lugar  ou outro porque haverá sempre  o medo à espreita.
          Uma espécie de medo coletivo que se apoderou   das pessoas  está acabando   com a antiga alegria  de liberdade  e de vida ao ar livre saudável e sem  a paranoia que tomou conta de seus habitantes. A notícia agora de uma intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, a cargo do  Exército  Brasileiro, é algo alvissareiro aos cariocas penalizados  no seu cotidiano   e em todos os bairros pelo crime  organizado. Por outro lado,  não se deve  esquecer  de que o respeitado  Exército só terá êxito quando travar  uma batalha ingente  contra  traficantes  de drogas  e armas  e os viciados  em drogas em todos os níveis sociais. De nada valerá   só  o combate sem trégua  contra os  bandidos se não forem   tomadas  medidas  enérgicas e contínuas  contra os usuários de drogas.
        Sei bem que isso  envolve outros componentes de lidar com  esse  gravíssimo problema, para cuja solução os agentes sociais   são chamados a colaborarem com  o Exército. Sabe-se também  que um  dos fatores   da gigantesca  violência   tem raízes  na complacência  contraproducente  dos governos  que,  no passado,  não   tomaram   decisões eficazes  de modo a  não permitirem  que as chamadas favelas ( eufemisticamente  denominadas comunidades) se transformassem em megafavelas nas quais   prevalecem, ao logo dos anos,  lideranças criminosas que estabelecem  regras próprias de convivência social  - espécie de “governos paralelos”   e desobedientes  às leis do Estado - entre os seus habitantes na base do terror implantado pelo tráfico e milícias. Nesses redutos convivem  pessoas honestas e  marginalidade armada  e ostensiva impondo-se através da força das armas e exigindo uma “lei do silêncio”   sob a mira  de armas de fogo e  com arsenal  mais poderoso do que o da segurança  pública.
       Sei igualmente que o crime  no Rio de Janeiro, de São Paulo  e de outros estados da Federação evidencia  fatores intimamente   relacionados  às condições  aviltantes da pobreza brasileira, à ausência  do Estado, da educação,   ainda bastante  deficiente, e, finalmente,  ao êxodo rural, com as migrações  ocorridas maciçamente ao longo dos anos para, notadamente,  as cidades  do Rio de Janeiro e São Paulo. A falta de controle dos dois  estados com os emigrantes, sobretudo do Nordeste e Norte, a falência de outros estados  de não reterem em seus lugares   de origem   esse contingente   colossal  de   população sonhando com uma vida melhor, um Eldorado tupiniquim,  na grande cidade, são outros componentes  da proliferação da miséria e, no limite, do número  altíssimo de favelas  no Rio de Janeiro.
         A cidade das mulheres bonitas  e das praias  paradisíacas, vem há tempos sendo  o alvo de uma escalada  de homicídios nos quais as vítimas são crianças mortas por balas perdidas num crônico estado de guerra e  confrontos entre  facções criminosas e enfrentamentos  com  as polícias militar e civil. Estes confrontos  de criminosos e traficantes e as forças de segurança do  estado do Rio de Janeiro  já deixaram atrás  de si um número elevadíssimo de  policiais  mortos  e, em muitos casos, lutando em desigualdade de condições  de armamentos  contra   traficantes  superiormente armados. A sociedade  carioca e a fluminense  têm sido  outra grande vítima das ações sangrentas de  meliantes do tráfico. 
       Oxalá o general que irá comandar a segurança pública do Rio de Janeiro consiga pelo menos reduzir ao máximo  das possiblidades  as aflições e os desesperos  de uma cidade que se tornou  refém  da maior criminalidade de todos os tempos -  a bela e amada Cidade de São Sebastião. Desejo-lhe boa sorte e espírito cívico nessa  espinhosa empreitada.


                                 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O CONTO DE JOÃO ANTÔNIO: A MALANDRAGEM NA LINGUAGEM


                                                                                                                
                                                                                             Cunha e Silva Filho

                                                   
                                                          A literatura é uma arte construída com a linguagem
                                                                                        A.    Hill

         Este estudo pretende  mostrar como João Antônio (1937-1996), contista paulista, conseguiu imprimir à linguagem uma marca revolucionária a partir mesmo da sua obra de estreia,  Malagueta, Perus e Bacanaço (1963). Nas décadas de sessenta a oitenta do século passado, João Antônio foi voz destoante da maioria dos ficcionistas então surgidos, exatamente porque ambientava histórias no submundo da malandragem ou nas camadas sociais mais desvalidas da sociedade brasileira, ao passo que escritores dele contemporâneos situavam histórias sobretudo no ambiente da classe média, com seus conflitos existenciais e suas frustrações sociais e políticas durante a ditadura militar implantada no país em 1964.
        O autor, uma voz quase solitária, voltando-se aos humildes e à marginália, encontrou uma original e subversora forma de discurso ficcional se contrastada com seus contemporâneos. A primeira parte de nossa análise procura demonstrar que a linguagem do contista vem a ser, na história da literatura brasileira,uma voz rara de um ficcionista que consegue com êxito e originalidade recuperar a fala dos oprimidos , ou melhor,  que consegue libertar o texto sequestrado nos termos formulados pelo crítico Donald Schüller, conforme veremos adiante .
        A segunda parte deste trabalho, considerando um corpus de cinco contos [1], detém-se em quatro aspectos da linguagem do autor: comparação, gíria, frase sentenciosa e um paratexto, a epígrafe. A análise demonstra que, ao mobilizar tais recursos estilísticos, o escritor sempre teve como finalidade romper com práticas ideológico-expressivas do discurso ficcional de estofo burguês.
      No estudo de Jesus Antônio Durigan, “A ciranda da malandragem, ” há uma observação que bem de perto singulariza a ficção joãoantoniana como obra subversora no que concerne ao componente da linguagem:
(…) Ao contrário de muitos narradores que falam da pobreza, às vezes do alto da torre,  seu narrador assume e, com isso, dá voz ao objeto representado. (grifo nosso ) (DURIGAN, 1983: 218)
      Tomando-se em conta o lexema “ voz ” e o sintagma “ objeto representado”, podemos combinar os termos de nossa equação que configurarão não só a linguagem , mas também a sua correspondente estratificação social . Ou seja, o escritor delimitando o seu mundo representado – o espaço da malandragem – e o discurso que lhe servirá de canal comunicativo, através de uma adequada e original manipulação da linguagem literária plasmada não nos moldes tradicionais do discurso das classes dominantes, mas – e aqui podemos divisar sua originalidade –, partindo de uma engenhosa maneira de combinar esteticamente a língua literária e a oralidade do discurso popular.
        O resultado, proposto nos termos do texto joãoantoniano, não conduz ao artificialismo que comumente verificamos em tantas tentativas de aproximar a linguagem literária da oralidade.Diríamos que talvez semelhante tentativa vitoriosa podemos apenas observar na fala dos personagens de Guimarães Rosa, tal como foi lucidamente compreendida pelo ensaísta Paulo Rónai (RÓNAI, 1972: 29-58), isto é, o processo de adequação ficcional linguisticamente verossímil se dá através da utilização de uma forma elaborada criada pelo artista no sentido de convencer o leitor, sem cair no artificialismo naturalista. A linguagem dos personagens rosianos nos passa a impressão de verdade e convencimento. Sentimo-la como tal, graças à engenhosidade alcançada pelo ficcionista que, não abdicando de seu estatuto literário, consegue ajustá-la à psique dos personagens. É a elaboração literária que dá naturalidade à linguagem.
       Desta maneira, a linguagem a que recorre o autor não é, como parece a alguns analistas de sua obra, nada descompromissada com a arte literária. Não se confunda arte literária da narrativa de estofo burguês com arte literária de estofo popular. O tema pode ser popular  mas a linguagem pode até bem ser aristocratizante em seus artifícios e fórmulas de construção narrativa, como de certa maneira ocorreu a Macunaíma, de Mário de Andrade.
      Ao contista importa - e muito -, o componente linguístico. O estranhamento que o leitor experimenta no primeiro contato com a sua ficção é aquele universo autocentrado na expressão da linguagem, nos lembrando  uma realidade que mal conhecemos, mas na qual podemos identificar determinadas situações da comunicação social. O saldo que obtemos pela persistência da leitura não é desanimador, embora por vezes haja certos trechos do seu discurso que nos enredam e causam perplexidades pelo inusitado da sua sintaxe e sobretudo de seu campo vocabular.
      Compreendemos, mais tarde, que o estranhamento ou perplexidade do seu discurso ficcional, ao contrário , se funda na própria realidade violenta e ambígua do “ jogo da vida ” dos seus personagens marginalizados, geradores de sua própria linguagem, linguagem essa cifrada pela dor do medo e da força bruta de suas vidas diante da luta pela sobrevivência, quer a condenemos ou não , nós outros bem instalados em sofás burgueses.
      Não procede, a nosso ver, a afirmação de estudiosos da literatura brasileira que não percebem em João Antônio um escritor que tenha contribuído sem dúvida com novas formas de linguagem e recursos de técnicas narrativas. Ao contrário, no contista pouco mais veem do que uma surrada dimensão de cunho populista, o que não é verdade, segundo temos procurado demonstrar até aqui, assim como ainda o faremos no decorrer do estudo.
      Ora, não é preciso ler João Antônio por inteiro para se constatar os inúmeros recursos inovadores de sua ficção e de seu discurso, mesmo a partir da obra de estreia. Que exemplo mais taxativo da qualidade estilística de um escritor do que aquela peça literária magnífica, aquele instante de lucidez de composição e de avanço estético, que é o texto “Amsterdã, ai!”, da obra “Abraçado ao meu rancor (1986).” [2] Esse texto apenas é suficiente para o considerarmos um ficcionista que atingiu o ponto mais alto de sua maestria e de consciência técnica de produzir literatura de qualidade universal.
     Um dos mais intrincados dilemas (ou problemas) de qualquer autor de ficção – a linguagem literária –, se coloca sempre que o criador se defronta com a técnica da narrativa, isto é, como irá lidar com o discurso do narrador e do personagem, e sobretudo como deverá falar este último o seu discurso quando representa um indivíduo analfabeto ou semiletrado ou mesmo um doente mental ?[3] No exemplo de João Antônio, a voz narrante se encontra entre estas situações, é a voz de um malandro, de um marginal. Qualquer tentativa de fazer esta voz articular-se por padrões cultos ou letrados se torna falso e inoperante.
      A questão de dar voz ao personagem, que é o que acontece com o texto joãoantoniano, nos remete agora a um elucidativo capítulo, a nosso ver,chave para aprofundarmos o exame da linguagem do autor. Referimo-nos ao ensaio de Donald Schüller, Teoria do romance em especial o capítulo 3, sob o título “Intertextualidades,” no qual focaliza o que denomina texto sequestrado e texto liberto. (SCHÜLLER, p. 25.)
     Schüller, de forma sucinta, conforme a natureza do ensaio, concorda com a ideia de quem viu em Macunaíma, de Mário de Andrade, alguma “ ressonância alencarina” logo na introdução do romance, argumentando em seguida que os pontos divergentes entre o romance de Mário e o de Alencar, Iracema, são também visíveis.
     Primeiramente, discutindo a parte de capítulo “ Texto sequestrado,” lembra que Carlos Fuente vê a América Latina constituída de “ textos sagrados ” que precisavam de ser profanados a fim de dar voz a “(…) quatro séculos de linguagem sequestrada marginal e desconhecida.” ( Idem , ibidem, p. 21) É à volta desta questão – ou sequestro do texto – que Schüller desenvolve uma breve e fina análise de Macunaíma.
      Mário de Andrade, considerado o subversivo da linguagem literária canonizada e há séculos detentora do monopólio daquela linguagem, não foi bem entendido por filólogos, gramáticos e mesmo colegas da aventura ficcional.[4] Apegados a uma visão dissociativa entre a linguagem literária e linguagem popular, entre o culto e o coloquial, aqueles estudiosos não alcançaram o sentido inovador , estético-parodístico de Macunaíma, já que lhes faltava conhecimento teórico de narratologia, das implicações complexas entre narrador, personagem, focalização, tema, leitor etc. A visão que demonstravam era meramente unilateral. Era o ponto de vista gramatical então dominante,e que de certa maneira se manteve durante muito tempo depois do lançamento de Macunaíma.
      Com base na tese de sequestro do texto, mostra que o “ herói sem caráter ” provindo do mundo primitivo das florestas, assimila a cultura dita civilizada de forma acrítica. Sua visão se inverte, passa a falar, ou melhor,  a escrever na língua do dominador, segundo vemos na “ Carta pra Icamiabas.”
       O “ herói sem caráter ” não sequestra só a linguagem, a falada,  mas a escrita , a letrada, a erudita. A força do texto sequestrador invade também a realidade. A inversão assume, então, a sua dimensão paródica. Macunaíma passa a ver São Paulo como um paraíso. Aos olhos da cultura autóctone,é visto como “ reformador, ” com experiência da vida industrial paulista. A “ Carta pra Icamiabas,” não é senão a forma contundente, que Mário de Andrade emprega para ridicularizar a ignorância e a impostura sob a capa de saber clássico do civilizado, incapaz de revelar a real face da civilização, isto é, o texto sequestrador é impotente para exprimir o “ referente. ”
       Em seguida, adianta que o conservadorismo da linguagem do sequestrador é mais durável que o político. Para ele, Mário de Andrade visa romper com o “ mundo sequestrado.” Cumpriria a Mário lutar por essa libertação não só ideológica mas sobretudo da língua literária.             Por isso, seria preciso desconstruir o texto sequestrador, a fim de que, mostrando suas falhas, limitações e principalmente seu absolutismo, surgissem da destruição as outras vozes subjugadas. Adverte com razão Schüller que Mário de Andrade não foi o primeiro a dar esse passo. O passado também tem peso e voz, insinua o ensaísta. Nesse caso, disso seriam exemplos um Gregório de Mattos, um Manoel Antônio de Almeida, um José de Alencar, um Lima Barreto, um Machado de Assis.
       Num segundo momento da mesma parte do capítulo em questão, ainda desenvolve reflexões sobre uma outra situação de sequestro do texto, dessa vez voltando sua atenção para a obra Vidas secas, de Graciliano Ramos. Recorda que, no caso de Macunaíma, o sequestro se dá de fora para dentro. Agora com Vidas secas, o sequestro é de ordem interna, dando como modelo o personagem Fabiano. O uso da linguagem no conhecido personagem se realiza mais nos gestos e nos movimentos, porque, segundo o ensaísta, Fabiano se comunica “num estágio anterior ao discurso lógico.” ( Idem, ibidem, p. 23.) Fabiano, mal se comunicando com simples ordens ou interjeições e expressões soltas de indignação, se assusta com a realidade dos que detêm melhor o poder da fala ou são investidos do poder instituído, o soldado amarelo, o interlocutor privilegiado que o acabrunha e deixa-o inerte e sufocado.
       Schüller, ademais, mostra que a linguagem de Fabiano, um ser incapaz de se articular normalmente,  foi, portanto, outra vítima de sequestro linguístico interno. Assustado até mesmo no seu habitat, amedrontado com o discurso alheio, ato linguístico acima das possibilidades de retirante sem voz e vontade mesmo de lutar contra as condições mesológicas, Fabiano – escreve Schüller –, situa-se entre “o homem e o animal. ”
       Fabiano é o indivíduo preso às forças primitivas e cósmicas, um personagem atado a instâncias diversas, um ser a quem se negou a própria linguagem como forma de representação plena e decisória. Por isso, finaliza o crítico, o texto sequestrador impede que a matéria narrada manifeste a sua própria natureza e forma de linguagem liberta.
      No terceiro momento do capítulo 3, “O texto liberto, ” analisa o discurso de Riobaldo em Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Partindo de elementos internos da narrativa, receptor e referente, frisa que o objetivo do narrador é conseguir sua autonomia.
      Em Grande Sertão Veredas encontramo-nos novamente com a questão do texto sequestrado e sequestrador, com a diferença de que agora se soltaram as amarras do discurso sequestrador que vem acompanhando o percurso da literatura brasileira desde os árcades, passando pelo indianismo e mesmo chegando até os modernistas, com as raras exceções em que houve, em certa medida, a busca da autonomia de voz do discurso literário em confronto com o discurso dos dominadores. Desta forma, o texto liberto permitirá que a fala do sertanejo de Minas assuma o próprio controle da expressão de sua subjetividade, de seus conflitos, dúvidas e contradições, livre dos interditos longamente consolidados pelo discurso elitista e reacionário. Ou, como salientou Schüller, o discurso de Riobaldo deixa de ser servil, não se permite assimilar ao discurso do civilizado. Fala como igual, não só com respeito aos problemas existenciais locais como também verticaliza sua universalidade. É um personagem disponível à libertação. Seu diálogo com o mítico ou civilizado mantém-se equidistante. Não se dobra ao silêncio. Seu discurso rompe hierarquias da mesma, reconhece o ensaísta, como havia ocorrido numa modernidade antecipadora com Machado de Assis, outro ficcionista avesso à subserviência de uma linguagem presa a um passado estéril,  acrítico e acomodatício.
         No caso particular de João Antônio o dado externo, de natureza meramente biográfica, não pode, porém, deixar de ser considerado O autor, antes de se tornar ficcionista, vivenciou aquele nível de linguagem do marginal e das populações humildes muito antes de transformá-lo em escrita literária. A sua linguagem resulta, conforme assinalou Cassiano Nunes, da “ vivência, não só da observação. ” (Cf. NUNES, 1983: 35)
        As falas, os desabafos e os monólogos dos personagens malandros, iletrados e miseráveis, nos dão a mesma sensação ( auditiva ) que ouviríamos daqueles mesmos tipos sociais, ou seja, encontram uma perfeita e admirável homologia, no plano literário, graças à impressão sonora e movimentos rítmicos resultantes do tipo de frases, torneios, pausas e construções empregados pelo escritor, com o mundo empírico. Tal é a habilidade de elaboração estética lograda pelo caráter oral do discurso. É aquela mesma impressão de autenticidade artística que podemos sentir quando lemos um texto rosiano, conforme já acentuamos anteriormente.
        Esse procedimento em lidar com a linguagem nada tem a ver com a reprodução artificiosa e pouco convincente que, no Pré-Modernismo, inclusive em Lima Barreto, e, depois, em pleno Modernismo, alguns autores procuraram aproximar a linguagem literária da oralidade, ainda mesmo se levarmos em conta uns poucos ficcionistas que tentaram fundir, no discurso do narrador, expressões ou modismos do discurso oral e regional dos personagens, segundo bem demonstrou o José Maurício Gomes de Almeida em estudo fundamental sobre o romance regionalista brasileiro. (ALMEIDA, 1980: 137)
        Salienta aquele crítico que Oliveira Paiva, em Dona Guidinha do Poço (c. 1891), romance escrito, pois, nos fins do século 19, mas só publicado em 1951 por estímulo de Lúcia Miguel Pereira, segundo nos dá notícia Alfredo Bosi (BOSI, 2001: 195-196), já marca a presença de uma obra cuja linguagem prefigura características expressivas do romance de 30 e bem assim alguns traços expressivos regionais de Guimarães Rosa (ALMEIDA, 1980: 142 e 144). Ou seja, antecipou-se mesmo no uso da linguagem literária a outros autores de valor que surgiriam posteriormente e se distinguiriam pela assimilação, pelo menos ao nível do léxico, das formas de linguagem dialetal de um Valdomiro Silveira e Simões Lopes Neto, estes já próximos do Modernismo.
      Entretanto, provavelmente foi em Guimarães Rosa que a linguagem literária, pelo caminho da oralidade, radicalizou a aproximação do narrador e do personagem, alcançando uma fase de invulgar capacidade expressional, colocando em pé de igualdade a linguagem dos dominadores e dos dominados.
      Essa mesma estratégia com resultados positivos – não confundir com o material linguístico, erudito, neológico, ou meramente popular ou regional de que copiosamente lançou mão Guimarães Rosa – no trabalho com a escrita literária identificamos em João Antônio. Estamos falando nesse caso de realização artística, de adequação de linguagem conseguidas por um escritor urbano e por um ficcionista regional  mas de dimensão universal.
       Em João Antônio a linguagem parece ser, entre os escritores dele contemporâneos, uma das mais bem acabadas formas de realização do discurso da oralidade compatível com a classe social dos personagens, não apenas ao nível do léxico, mas sobretudo ao nível sintático, ao ritmo e musicalidade da frase, e a um estilo literário que, lido em certas passagens , parece mimetizar o próprio ritmo das falas e ações dos personagens. Ou seja, da fala dos personagens percebemos não só o desenvolvimento da trama, mas principalmente um certo  gosto de experimentar o prazer da construção do texto, num ludismo de linguagem cujo objetivo é talvez testar os limites das virtualidades rítmicas, melódicas e semânticas da frase, da construção, enfim, do discurso narrativo malandro. Essa estratégia é intencional, o seu caráter metalinguístico é incontestável:
      A cambada é grande, folgada, pensando que a noite lhe pertence, ainda mais aqui nestas casas da Zona Sul. O que vai me baixar pela frente, não está em nenhum caderno. O que vai pintar de trouxa, espertinho, pé grande, mocorongo do pé lambuzado, muquira, bêbado amador,  loque, cavalo de teta, Zé mane dando bandeira,doutor de falsa fama,papagaio enfeitado, quiquiriquis, langanhos, paíbas, não será fácil . Eu aturando, ô pedreira ! ( LC, p. 5-6 )
      É nesse nível de inventividade estilística que podemos considerar João Antônio um escritor original e conscientemente empenhado em trabalhar a linguagem. Talvez esse fato tenha passado mesmo despercebido por alguns críticos, muitas vezes mais interessados em apontar-lhe uma alegada tendência populista ou ideológica, de que foi vítima também parte da ficção de Jorge Amado.
       Não pretendemos negar alguns elementos, não todos, da linguagem e do espaço humano que, o contista trouxe do Realismo ou do Naturalismo do século 19, aí se incluindo, por exemplo, o recurso à gíria, a linguagem direta, a preferência pelas camadas mais humildes da população, o lado documental, a linguagem coloquial, direta, vulgar. (Cf. COUTINHO, 1968: 179-199)
        Do Realismo cremos que o contista tenha aproveitado uma particularidade, de resto, aquela que nenhum escritor deve subestimar, o cuidado com a linguagem, elevada ao máximo de suas potencialidades criativas, como são modelos os seus textos ficcionais ou não-ficcionais, nos quais mais do que os temas, os enredos, a preocupação com a linguagem e com os recursos narrativos de composição está sempre presente na sua atividade de artífice da palavra, quer nos textos ficcionais ou não-ficcionais, quer nas entrevistas, nos paratextos que nos legou, como são insofismáveis testemunhos de sua experiência de escritor e de visão de intelectual os textos “Paulo Melado de Chapéu Serralho ” (ANTÔNIO, 1980: 79-129) e “ Corpo-a-corpo.” (ANTÔNIO, 1976: 141-151)
        A grande distância, porém, a separar o autor dos realistas/naturalistas está exatamente no fato de que ele subordinou a escrita literária aos parâmetros da linguagem popular, à autonomia de conceder o ato de comunicação a um narrador marginal, isto é, um narrador que recuperou a capacidade de pensar e se expressar por si mesmo, sem mais a intermediação da voz autoral culta e distanciada do texto sequestrador.
        Foi mercê dessa conquista ou estratégia de renovação do discurso narrativo que o seu texto ficcional adquiriu maior autenticidade. Foi pela recuperação do texto sequestrado que o ficcionista optou por uma linguagem transgressora de padrões linguísticos geralmente comuns em escritores de origem burguesa, conquanto estes se disponham a inovar técnicas narrativas complexas e sofisticadas.
       Nesta parte a discussão em torno da linguagem do contista se restringe a aspectos pesquisados circunscritos à visão dos contos analisados, pois foge aos objetivos do trabalho a análise da linguagem de toda a obra do autor. Isto posto, julgamos merecedores de atenção no estudo da linguagem do contista quatro aspectos, dos quais os três primeiros assinalados abaixo são altamente recorrentes nos limites dos contos pesquisados:
a)    O emprego da comparação de natureza zoomórfica;
b)    A gíria;
c)    As frases sentenciosas;
d)    O uso de um paratexto: a epígrafe.

  O emprego da comparação de natureza zoomórifica
       Consideremos o primeiro aspecto, o da comparação de natureza zoomórfica, o qual para nós não passa obviamente de um resíduo do Naturalismo, encontrado, por exemplo, em O cortiço, de Aluísio Azevedo.
       A frequência desse traço relaciona-se a nexos que se estabelecem no plano social entre o homem e os seres irracionais que,  no âmbito da frase, instituem o processo retórico da comparação ou símile de cunho e matriz determinista. Deve-se referir neste caso a natureza disfêmica do conjunto de comparações. Isto é, não se identifica em nenhuma delas alguma que venha exprimir um sentido de positividade, visto que todos procuram estabelecer uma invariante semântica rebaixadora no que respeita às qualidades humanas, ou por outra, a metaforização comparativa esvazia o indivíduo de qualquer valor positivo. Vejamos, a título de ilustração, alguns exemplos desse tipo de comparação, os quais destacamos com grifos:
1.  Em “ Malagueta , Perus e Bacanaço”:
a)  “ Não andam como coiós apertando-se nas ruas por causa de dinheiro.” ( p.107);
b)  “Grudam-se, se chocam como bichos , que a coisa ali por bem não vai.” (p.110);
c)  “Fica quebrado , quebradinho, igualzinho à coruja ”. (p.1140)
2.  Em “ Leão-de-chácara ”:
a)  “(...) mas também molhando a mão dos ratos (...)”  (p.6)
“(...) e esta vida cachorra é uma dissimulada dos capetas.  (...)” (p.7);
b)    “(...) mandavam de galos nos cabarés e leonavam (...).” (p.9)
3.  Em “Joãozinho da Babilônia”:
a)  “ Como feito um gato velho .” (p.40);
b)  “Endeusado assim , o cavalo deslumbrou e a gorjeta veio dobrada.” (p..45);
c)  “O cachorro não teria tempo de dar à mauser.” (p.51).
4.  Em “Paulinho Perna Torta ”:
a)  “A gente na rua parecia cachorro enfiando a fuça atrás de comida .” (p.62);
b)  “ Como bichos .(p.63);
c)  “ Um bicho gordo . Vermelho , com o cigarro que não saía do bico .” (p.66).
5.  Em “ Dedo-Duro ”:
a)  “Essa aves , de comum , nem jogam, nem apostam (...).” (p.153);
b)  “Senti um frio nas pernas e aquela coisa animal , o pressentimento fera do batedor .” (157);
c)  “A rataria sempre age com rapidez .” (p. 153).
         Os três exemplos dos cinco contos acima dão uma nítida ideia da imagística igualando homens e irracionais com o objetivo de denotar o ambiente violento e embrutecido do comportamento humano no espaço da malandragem
          A rusticidade dos gestos, reações e vida desse contingente, combinando carência afetiva e material, resulta na correlata forma comunicativa e pragmatismo nos relacionamentos sociais tensos entre os interlocutores.


A gíria
         Um dos traços definidores da linguagem do universo malandro joãoantoniano é a utilização da gíria [5] que por vezes se confunde com a própria obra do contista, porquanto frequentemente associada à sua trajetória de escritor cujo ponto alto gravitou em torno da marginália, em cujo espaço – devemos reconhecer – imprimiu a marca de sua melhor produção ficcional, tendo à frente os dois contos primorosos “ Malagueta, Perus e Bacanaço” e “Paulinho Perna Torta. ”
       O recurso da gíria, [6] se é componente básico na configuração do espaço da marginalidade, não é, todavia, condição vital à grandeza de sua ficção. Tanto é assim que o leitor do seu texto jamais vai entender todo esse léxico ou expressões cifradas da linguagem do malandro, que requerem pesquisa e iniciação, razão pela qual  sentimos, durante a leitura do texto a falta de um glossário, à semelhança do que já fizera Antônio Fraga (p. 71-72) para a maior facilidade do entendimento do léxico ou de torneios frasais irredutíveis à plena compreensão do leitor.
       Mas, se não é vital para a realização artística do texto, se é apenas um pormenor enriquecedor e marcador da linguagem de um determinado estrato social, o nível de excelência do texto só se manifesta quando levamos em conta a maestria do escritor ao conseguir amalgamar o substrato da tradição literária com os componentes adicionais provenientes da oralidade de cunho popular.
       A gíria entra na substância da linguagem como forma, aí sim, de ruptura e de reação à linguagem de estofo conservador. Os elementos de fundo popular contribuem, na fusão com a tradição literária, para definir uma forma de tratamento estilístico do autor. Dessa maneira, se justifica o mosaico de frases truncadas, de colagens, de montagens, de expressões da gíria, de provérbios, de relatos sensacionalistas, já oportunamente lembrados por Cassiano Nunes (Cf. NUNES, 1983) e Jesus Antônio Durigan. (Cf. DURIGAN, 1983)
       O estranhamento de construções de sabor popular ou mesmo vulgar, a nosso ver, constitui um sinal de modernidade do estilo de João Antônio. A sua linguagem, “contra-ideológica,” (NARRID MESQUITA, SAMIRA: 1984:64)  para usarmos uma expressão da ensaísta Samira Nahid Mesquita vai na contramão do conservadorismo burguês, alvo frequente da prosa de João Antônio, que mesmo não poupava certos segmentos acadêmicos da intelectualidade brasileira, conforme podemos ver em textos a um tempo vigorosos e polêmicos como “ Corpo-a-corpo com a vida ” (ANTÔNIO, 1976: 142-151)[8]  e “O buraco é mais embaixo ” (Cf. ANTONIO, 1977: 4-5.).

A frase sentenciosa
        Assim como a gíria marca a classe social ou profissional, há na ficção de João Antônio um riquíssimo veio composto de provérbios, anexins, ou do que se costuma chamar de “ frase sentenciosa, ” cuja motivação vem expressar aquele mesmo propósito de deixar falar o vulgo, o ignorante, o grosseiro, o iletrado.
        A experiência nos ensina que, no ambiente de cultura iletrada, semiletrada ou mesmo ágrafa, há uma forte predisposição para que os falantes reproduzam de geração em geração expressões populares que formariam parte da sabedoria ancestral. Não confundir sabedoria com inteligência ou erudição. Ora, essa tradição popular em alguns indivíduos de pouca ou nenhuma cultura letrada serve muitas vezes como receituário de vida, ou modos de conduzir a vida, ou de entendê-la nos limites do conhecimento ou experiência acumulada.
       Um caso típico dessa sabedoria ou visão de substrato popular poderemos ver no narrador-personagem do conto “ Leão-de-chácara, ” o Pirraça, que tem a mania de usar frases sentenciosas como modo de entender a vida e como forma de se resguardar do perigo e das dificuldades de sua própria e arriscada atividade de segurança noturno numa boate carioca.Os provérbios ou frases sentenciosas aparecem também com boa frequência nos demais contos investigados.
       A escrita de João Antônio mais uma vez rema contra a maré do texto de estofo burguês . O contista parece estar sempre opondo a contribuição de elementos populares à fala dos letrados como procedimento recorrente e contestatório.
      Ao recorrer a uma profusão de adágios, o contista renova a linguagem literária através de inventivas modificações operadas naqueles ou através da contribuição das frases sentenciosas que passam à condição de verdadeiro manual de sabedoria dos malandros. Massaud Moisés, comentando a linguagem do contista no tocante aos contos sobre malandros, cunhou com muita propriedade a expressão “ metalinguagem do malandro ” (Cf. MOISES, 1996: 483-484). O malandro, ruminando seus monólogos ou em conversa com os outros, é alguém que parece estar investido de uma filosofia blindada contra as asperezas e perigos da vida: “ Viver é brabo. ”(DD, p.135).
        Vejamos alguns exemplos do uso de provérbios ou dessas mencionadas frases sentenciosas que aparecem nos cinco contos examinados:
1.     Em “ Malagueta , Perus e Bacanaço”:
“ Sem dinheiro, o maior malandro cai do cavalo e sofredor algum sai do buraco .(p.102);
“A noite não gosta de ver ninguém bom.”(p.102);
“ Mas onde há jogo bom, piranha vem morder. ” (p.108);
2.     Em “Leão-chácara:
“(...) em lagoa de piranha , jacaré nada de costas ou procura as margens .”(p.7);
“ Aquilo que dá grana , dá canseira .” (p.7).
“O falador se dá mal na vida e o come-quieto só come porque não fala .” (p.8);
“ Comando o pão que o capeta amassou com o rabo .” (p.12).
3.     Em Joãozinho da Babilônia”:
“Havendo grana , malandro fareja.” (p.47);
“ Devagar com o andor .” (p.49);
“Vacilou, dançou” (p.52);
4.     Em “Paulinho Perna Torta ”:
“ Mulher só serve para dar dinheiro ao seu malandro .” (p.78);
“ Quem conta tostão não chega ao cruzeiro .” (p.98);
“ Fala clarinho, que para bom entendedor um pingo é letra .” (p. 103);
5.     Em “ Dedo-Duro ”:
“O peixe morre pela boca (...)” (p.143);
“e sabe o buraco onde a coruja dorme.” (p.143);
“ Que se foda o andor , qu’ eu não me chamo Nicanor.” (p. 144).
        As modificações ocorrentes porventura nos provérbios ou frases sentenciosas, contextualizadas assim num texto literário, resultam num eficaz exercício lúdico-paródico, de corte irônico, de muita vitalidade e humor. A ficção de João Antônio mais uma vez dá prova de inovação de linguagem através dessas inventivas alterações, ou mesmo de apropriações de frases dessa natureza certamente ouvidas da boca do vulgo.

O uso de um parateto: a epígrafe
          Fábio Lucas, em fundamentado estudo sobre a origens e o desenvolvimento da epígrafe considera esta um “ lema ou divisa ” cuja finalidade seria exprimir resumidamente “(...) o espírito dominante de um livro ou de um capítulo deste, ou de uma composição literária .”[8]
         A “ ideia dominante ” de que fala o ensaísta parece ser a opção adotada por João Antônio, pelo menos nos domínios dos cinco contos discutidos neste estudo. A utilização, porém, do paratexto em causa mais uma vez reafirma a disposição do escritor para a atitude transgressora dos usos convencionais, como a indicar aquele mesmo procedimento narrativo de trabalhar a linguagem no sentido de recuperar o texto sequestrado, isto é, o de adequar a realidade da história ao discurso do dominado, devolvendo-lhe autonomia e autenticidade artística.
         Enquanto em geral as epígrafes encimam títulos de capítulos de obras literárias ou não chanceladas por autores de renome nacional ou internacional, João Antônio, numa postura intelectual intencionalmente contestatória, recorre a citações de autores em geral provenientes da cultura popular brasileira ou ainda puramente apócrifa. Ou seja, o contista foge, dessa forma, ao vezo aristocratizante das citações em línguas estrangeiras no original -- até pelo fato de ele próprio talvez não as dominar -- tão comuns em alguns escritores e autores nossos de todas as épocas, afastando-se, ademais, daquele “ espírito bacharelesco” ou do “ presunçoso espírito enciclopédico,” no dizer de Fábio Lucas reprovando “o abuso ” e a voga das epígrafes entre os escritores modernos. Assim procedendo, João Antônio se mostra rigoroso e coerente com o seu tema da malandragem, numa posição literária que nele revigora o compromisso de valorização da nossa produção não-erudita por vezes vista aos olhos das elites como de qualidade menor.
       O diálogo intertextual que suas epígrafes mantêm com os cinco contos selecionados encontra-se em perfeita sintonia com as situações e conflitos apresentados nos contos.
       Dessa sorte, ao recorrer a epígrafes extraídas do compositor Noel Rosa, que aparecem nos contos por duas vezes, uma no conto “ Leão-de-chácara ”, tirada da composição “ Esquina da Vida, ” de 1932, outra, que se encontra na abertura do conto “Paulinho Perna Torta, ” tomada à composição “ Século do Progresso, ” de 1934, João Antônio nelas faz ressoarem as duas realidades entremostradas. Na primeira depreende-se a relação tensa e dissimulada entre as figuras do malandro e do otário:
É na esquina da vida
Que eu faço o confronto
Do malandro pronto e do otário
Que nasceu pra milionário . (LC, p.3)
            Na segunda, a mudança da realidade do malandro que, com o surgimento da arma de fogo, reduziu o seu espaço de valentia dos tempos áureos da navalha ou capoeira :
Um valente muito sério,
      Professor dos desacatos
Que ensinava aos pacatos
 O rumo do cemitério (PPT, p.59)
          A utilização da epígrafe ou citação mostra no contista um procedimento, a nosso ver, abertamente iconoclasta quando, ao invés de empregar uma citação clássica de outro autor em diálogo com o texto, o ficcionista o que faz é autocitar-se: “... quem gosta da gente é a gente. Só. E apenas dinheiro interessa. Só ele é positivo. O resto  são frescuras do coração.” (PPT, p.159).
       Praticando desse modo a intratextualidade, ele radicaliza ainda mais o procedimento canonizado. Ao deslocar do corpo do texto narrativo um fragmento para servir de citação, parece definir uma atitude de deliberado deboche ou indiferença pelas normas cristalizadas do recurso do paratexto. Ironia que se aprofunda ainda mais quando, dissociando a voz do narrador da voz do autor – é este quem escolhe as citações que lhe pareçam convenientes à obra --, como que dessacraliza aquele espaço reservado às celebridades.
        No conto “Joãozinho da Babilônia” nos deparamos com duas outras epígrafes:uma do tipo intratextual deslocada do corpo do texto, com a mesma bipartição de vozes, a do narrador e a do autor:  “... apesar da idade, tinha tanta coisa para me ensinar na cama que eu perdi o remorso.” (JB, p.55) A segunda diz respeito a uma modinha que, segundo o contista, remonta ao tempo de D. João VI no Brasil:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar.
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.  (JB, p.35)
       Ambas as citações, como nos exemplos precedentes, remetem a um diálogo temático identificando as duas realidades, a ficcional e a da citação. Ambas referem os dois motivos que assinalam os dramas da história, a tragédia de natureza passional e o abissal sentimento amoroso.
       Finalmente, no conto “ Dedo-Duro ” mais uma vez distinguimos o mesmo procedimento no uso da seguinte epígrafe:  “ Viver é brabo.” Ou seja, a bipartição de vozes, a do narrador e a do autor: Desta vez com um tom inequivocamente dessacralizador: “— aí dentro, ” encimada pelo uso em tom de oralidade indicado pelo travessão: “ – outra ” Quer dizer,essa maneira de lidar com um texto ficcional, usando uma explicação da fonte da epígrafe em construção coloquial, indicia uma postura auto-irônica, carnavalizada, desestabilizadora. Nesse mesmo conto João Antônio cita uma frase de um vagabundo do Méier, conhecido bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, remetendo a uma situação de perigo iminente, em diálogo assim com a situação análoga no conto:  “De´ repentemente, urubu ‘tá comendo gente.” (DD, p.133) Veja-se, além disso, a nomeação do sintagma antecedido de travessão, reforçando o seu sentido de oralidade e ironicamente redundante na explicitação do paratexto, já que se encontra no próprio espaço a ele destinado na página:  “ – uma epígrafe .”


NOTAS:

[1] Os cinco contos mencionados são “ Malagueta , Perus e Bacanaço” (ANTÔNIO, 1963); “ Leão-de-chácara, ” “Joãozinho da Babilônia” e “Paulinho Perna Torta ” (ANTÔNIO, 1980); Dedo-Duro ” (ANTÔNIO, 1982). Os o contos, nessa ordem, serão aqui referidos, respectivamente, pelas siglas MPB, LC, JB, PPT. e DD.
[2] Seria conveniente ler, a propósito deste original e desconcertante texto de João Antônio, um marco sem dúvida importante na sua obra no que concerne a aspectos formais e de linguagem. Um verdadeiro trabalho de experimentalismo da sua escrita, naturalmente que ainda contendo certos cacoetes estilísticos, mas inegavelmente uma mudança inovadora nos seus procedimentos composicionais, que o elevam ao patamar dos bons ficcionistas brasileiros.
[3] Veja-se o que afirmam acerca desta situação narrativa Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes: “(…) o que está em causa é a narração, enquanto processo de enunciação que pode decorrer no interior de uma personagem, e não a sua fixação material, pois que esse processo de enunciação pode até ser protagonizado por uma personagem analfabeta ou mentalmente deficiente,  como é o caso de Benjy, em O sonho e a fúria, de Faulkner.” Cf. REIS, Carlos & LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa.p. 116. ( grifo dos autores )
[4] Cf. a propósito desse tema a visão do ensaísta Barbosa Lima Sobrinho,ainda presa a certos esquemas narrativos e tradicionais da linguagem literária, conforme expõe na obra A língua portuguesa e a unidade no Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro, INL/MEC/Brasília, 1977. Ver especialmente o capítulo em que trata da linguagem de Macunaíma, de Mário de Andrade, p. 109-120. Não obstante reconhecer qualidades em Mário de Andrade, o autor é contundente na crítica, ao ponto de reduzir a linguagem de Macunaíma ao que denomina de “ robô linguístico mas robô, ” embora reconhecendo nela “a imaginação humana, ” “ um ser prodigioso. ” O mais paradoxal é que o juízo de Lima Sobrinho parece ajustar-se ao reconhecimento de Mário: “(…) e como se trata do manifesto de uma língua que também não existe, como confessa o próprio Mário de Andrade (…),” p. 120.
[5] Preferimos neste comentário acerca da gíria não abonar exemplos lexicais ou frasais, de vez que o tópico é muito abrangente e extrapolaria os limites que nos impusemos no desenvolvimento deste estudo, inclusive porque o tópico encontra seu adequado espaço de aprofundamento no domínio da linguística, e as nossas reflexões neste caso apenas buscam situá-lo sob uma visão estética.
 [6] Já existe uma ampla produção bibliográfica sobre o assunto, sobretudo de autores estrangeiros. No Brasil, seria proveitoso consultar: CÂMARA  JR, Joaquim Matoso. Princípios de Linguística Geral. Confira  sobretudo a seção “A gíria, propriamente dita, e a Língua Literária, ” p. 283-284. Ver do mesmo autor o verbete “ gíria ” no Dicionário de Filologia e Gramática referente a língua portuguesa. 3 ed. Revista e aumentada. Rio de Janeiro: J. Ozon Editor,   1968, p.173-174; MACEDO, Walmírio de. O vocábulo e as classes sociais. In:_____ O poder da palavra  com um vocabulário rico. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d.,  p. 37-40; SILVA BORBA, Francisco da. Introdução aos estudos linguísticos. 5 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional,1977. Cf. seção “IV – Gíria, ” p. 77-81; NASCENTES, Antenor. A gíria brasileira . Rio de Janeiro, 1952. De Portugal seria recomendável consultar LAPA RODRIGUES, N. Estilística da Língua Portuguesa. 6 ed. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1970. Cf. principalmente a seção “A gíria, ” p. 55-58.
[7] Trata-se de um substancial e vibrante depoimento-apêndice sobre o que o contista pensa da função do escritor em relação à  atividade artística, à temática por ele explorada, à escrita e à sua posição corajosa e realista de lidar com uma realidade que, nas condições atuais, não dá trégua a ninguém, ou, conforme a visão do autor, com uma realidade que, posta na ficção, faça desta uma literatura de bandido para bandido, fazendo pensar a história por si mesma e pela “ ótica” do personagem, visão interior sentida e experimentada no “ corpo-a-corpo com a vida.”
[8] LUCAS, Fábio. O mundo das inscrições. In:___. Fronteiras imaginárias – Crítica.  Rio de Janeiro: Cátedra Editora/INL/MEC,  1971, p.15. Uma análise bastante sugestiva sobre a epígrafe em textos literários pode se encontrar também em A tradição regionalista no romance brasileira de José Maurício Gomes de Almeida, em que o crítico desenvolve reflexões em torno deste tópico à luz do romance Inocência de Taunay. Ver o subcapítulo “O sentido da epígrafe ”. Cf. ALMEIDA, José Maurício Gomes de. Op. Cit., p. 91-103.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRAGA,Antônio. Desabrigo . Rio de Janeiro, Prefeitura do Rio de Janeiro , p. 71-72.
ALMEIDA, José Maurício Gomes de. A tradição regionalista no romance brasileiro (1857-1945). Rio de Janeiro:  Achiamé, 1980, p.137.
ANTONIO, João (org.). O buraco é mais embaixo . In: Malditos escritores . ( Coletânea de contos brasileiros ). São Paulo: Símbolo,1877, p. 4-5.
ANTÔNIO, João. Dedo-Duro. Rio de Janeiro : Record, 1982.
ANTÔNIO, João. Leão-de-chácara . 6 ed. Rio de Janeiro:Record, 1980.
ANTÔNIO, João. Malagueta , Perus e Bacanaço. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira , 1963.
ANTÔNIO, João. Corpo-a-corpo com a vida. In: –––. Malhação do Judas carioca.2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira , 1976, p. 142-151.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira.38 ed. São Paulo: Cultrix, 2001, p. 195-196.
CÂMARA JÚNIOR, Joaquim Mattoso. Princípios de Linguística Geral.
CÂMARA JÚNIOR, Joaquim Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática referente a língua portuguesa. 3 ed. Revista e aumentada.  Rio de Janeiro: J. Ozon, 1968.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura brasileira. 5 ed. Rio de Janeiro: Livros Escolares , 1968.
DURIGAN, Jesus Antonio. A ciranda da malandragem. In: SCHWARZ, Roberto. (org.) Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983, p.218,
LAPA RODRIGUES, N.  Estilística da Língua Portuguesa. 6 ed. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1970.
LUCAS, Fábio. O mundo das inscrições. In: –––. Fronteiras imaginárias. Rio de Janeiro: Cátedra/Instituto Nacional do Livro, MEC.1971, p.15.
MACEDO, Walmírio de. O poder da palavra.  com um vocabulário rico. Rio de Janeiro: Edições de Ouro,  [s/d.].
MOISES, Massaud. História da literatura brasileira.  V. 5 – Modernismo (1922 – Atualidade ). 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1996.
NARRID MESQUITA, Samira. O enredo.  2 ed. Série Princípios. São Paulo: Ática, 1987.
NASCENTES, Antenor. A gíria brasileira.  Rio de Janeiro, 1952.
NUNES, Cassiano. Releitura de João Antônio. In: 10 contos escolhidos de João Antônio. Brasília, Belo Horizonte /INL, 1983.
RÓNAI, Paulo. Os vastos espaços. In: ROSA, João Guimarães. Primeiras histórias. Rio de Janeiro: José Olympio/INL/MEC, 6 ed. 1972, p. 29-58.
SCHÜLLER, Donald. Teoria do romance. Série Fundamentos. São Paulo: Ática, [s.d.].
SILVA BORBA, Francisco da. Introdução aos estudos linguísticos. 5 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional , 1977.
FRAGA,Antônio. Desabrigo. Rio de Janeiro:  Prefeitura do Rio de Janeiro, p. 71-72.
Cf. MOISES, Massaud. História da literatura brasileira. V. 5 – Modernismo (1922 – Atualidade ). 3 ed. São Paulo, Cultrix, 1996, p. 483-484.
 NOTA:


Capítulo 3 “O contos de João  Antônio: aspectos estruturais, seção 3: “A linguagem na malandragem” p. 193-215)  da minha Tese de Doutorado na  área de Literatura Brasileira  defendida na Faculdade de Letras da UFRJ, 2º semestre de 2002, 349 p. Orientador: Professor Doutor  Alcmeno Bastos.  Este capítulo foi revisado  e atualizado   conforme o Novo Acordo Ortográfico.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A QUESTÃO DO TETO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

                                                                 


                                                                     Cunha e  Silva Filho


            O presidente Temer anda alardeando pelos quatro cantos do país que o país  só melhorará em parte o déficit da Previdência Social se for implantada e aprovada a reforma  proposta pelo  governo federal. Mas implantada pelo grupo que está no  poder por técnicos e políticos que leem pela cartilha  do PMDB – um partido  que não tem  lá  apoio da maior parte do povo brasileiro e que, ao longo da história  política brasileira, não se tem portado com tanta seriedade ética  que seria de esperar  de um agremiação partidária.  Basta ver alguns passos da trajetória  desse partido e das figuras que   pertenceram e ainda pertencem a seus quadros, os antigos e os novos.   
         Partido que   não  se recomenda pela  lisura de muitos de seus  políticos, partido  ao qual pertenceu  (pertence?) o   repudiado  Sergio Cabral – o pior governador  que já teve o  povo do Rio de Janeiro, o governador que levou o estado à ruína financeira  e ao sucateamento  da respeitada Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) através do maior assalto  que  se fez às finanças públicas  fluminenses.
       Seu sucessor,  o Sr. Pezão,  não tem dado conta também  do descalabro  herdado  do Cabral, permanecendo como  um governador  completamente  perdido, sem  direção,  um barco  à deriva enfrentando   os agônicos  problemas  de falta de dinheiro tanto  para  dar continuidade  à máquina administrativa  em setores públicos  setores vitais  da população (saúde, educação,  segurança) quanto para  pôr em dia o pagamento dos servidores, estes vítimas da perfídia do governo anterior que deixou atrás  de si os destroços de  um tsunami de sofrimentos, de aperturas  financeiras no corpo e no espírito dos barnabés    
     Será  que o PMDB, com todo um  curriculum  cheio de denúncias feitas pela Operação LavaJato (inclusive contra o próprio primeiro mandatário da Nação)  contra muitos dos seus correligionários  ou aliados  políticos, tem respaldo moral de  se arvorar,  agora, em salvador  da Pátria? Receio que não. A partir  dessas  premissas, nada favoráveis,  o PMDB   dificilmente terá apoio da sociedade   que, de resto, não foi consultada diretamente nesta questão  de reforma  previdenciária a não ser  pela representação  abstrata  de políticos  que, na maioria das vezes,  só se preocupam  com os seus interesses próprios e  as disputas de cargos  no atual governo federal, já que, quando  eleitos,  esquecem    de quem lhes deu votos que os levaram à Câmara Federal e ao Senado.
       Adentremos,  porém, na questão do teto salarial dos futuros  aposentados. Segundo recentes pronunciamentos, o  presidente Temer  tem afirmado que todos os futuros aposentados  serão igualados  nos seus vencimentos e pensões. Para os valores   de hoje não passariam de cinco mil e quebrados. Enfatizou o presidente: “Para todos, inclusive os políticos.” E aí cabe uma pergunta  pertinente: “Presidente,  e os outros setores  públicos nos três Poderes: executivo,  judiciário e legislativo? E as Forças Armadas? Será que um  desembargador federal, um general, um almirante e um brigadeiro   vão querer  se aposentar com míseros cinco mil  reais?   E como ficará a aposentadoria  dos deputados e senadores?
    Contentar-se-ão todos indiferentemente com  esse teto?  Por conseguinte,  essa questão não está bem esclarecida para a sociedade e, ao que tudo indica,   esse teto  igualitário, democrático soa  utópico  ou mascarado. Cumpre esclarecer   essa dúvida ou é ela mais outra falácia a fim de  engabelar   trouxas e desavisados?   
   Acautele-se, pois,  ó povo,  contra essas estrepolias  malazarteanas ou senão macunaímicas planejadas nos desvãos do poder executivo. Desconfie da esmola pequena, porquanto grande não é na aparência  e na  aplicação prática. Adoro um  paradoxo,   espicaçar  o cérebro das pessoas. Ah, se dispusesse dos  poderes intelectuais de  um Fernando Pessoa! ⁢Esmola de menos  o cego não desconfia. A picardia governamental  há séculos tem  feito bons ganhos  à custa dos pascácios. 
 Uma pergunta final me pressiona: por que o governo  de um partido  não muito amado, de repente,   quer  dar uma de bonzinho com  o cordeirinho  brasílico? Somos cordiais e  ordeiros – eis o busílis da política  ou é o nó górdio da questão? Deixo aos eleitores a reflexão sobre tudo que disse ou deixei de dizer. O texto é uma obra aberta, mas – repito   o que ouvi de alguém muito  arguto - – não é tampouco escancarada.



                                                                                                      

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O PAÍS DAS DISPARIDADES

                                   


                                                                        Cunha e Silva Filho



          Não pense o leitor que eu tenha alguma pretensão ou veleidade de ser um analista  da realidade brasileira como se fora um cientista político, um sociólogo,  um historiador ou um pensador. Ao meu texto simplesmente aplicaria a classificação de  gênero crônica, ou artigo de opinião. Nada mais do que isso. Meu texto  não está  repleto de quadros  estatísticos,  de porcentagens, de  gráficos,  de pesquisa  de campo,  de embasamento teórico com a sua terminologia própria e  o seu jargão técnico girando em torno de uma hipótese de trabalho. Seria, antes uma conversa (escrita) com um  leitor indeterminado, um leitor geral, em bate-papo  descontraído  e salutar, quiçá se aproximando (me perdoe a indevida comparação) de um “resmungo” à Ferreira  Gullar (1930-2016) ou à Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). 
          Se falar do título até diria que me inspirei numa nota  aposta a uma reportagem  de um   jornal  de ampla circulação.  Meu texto apenas quer se comunicar claramente com  alguém,  ou algum leitor que, por acaso,  me venha a ler e que, talvez, nem me conheça  bem.  A minha intenção, contudo,  é boa e não fará mal a ninguém, a menos que seja uma pessoa  extremista ou radical em questões  da realidade social  do país.
      Imitando uma ficha  de dados sobre um autor  analisado, apresentada por um  eminente crítico literário  brasileiro, que, agora,  anda um pouco afastado  dos arraiais literários ou acadêmicos, veja o que  mostro na  ficha abaixo: 

Brasil: pais de dimensões continentais;
População:  muito populoso, com um crescente   contingente de  idosos;
Língua oficial: língua portuguesa;
Classes sociais:    miseráveis,  pobres,   classe média baixa (difusa, a bem dizer, de difícil classificação),  média, média alta,  elite  econômica (alta burguesia), bilionários;
Níveis de escolaridade: analfabetos,  analfabetos  funcionais,  semiletrados, letrados,  altamente letrados (um parêntese: no  ensino da matemática,  o rendimento nacional se mostra  pleno de “disparidades”:  escolas com baixo rendimento em matemática, em contraste  flagrante com  escolas públicas (poucas) e privadas com alto rendimento  nessa disciplina. Se, porém, olhar-se   para o grupo de elite (no sentido cultural) no  desempenho da matemática,  vê-se que o Brasil,   contraditoriamente,  se alça, dentro dos parâmetros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a uma  posição    que já ombreia com os países com  o altíssimo  nível da União Matemática Internacional. Quer dizer,   o país  revela ser um mosaico  que vai  dos baixos níveis da educação mundial ao mais alto nível dos países  de economia  avançada.
Maiores problemas: corrupção política,  violência crescente, tráfico de drogas e de armas pesadas,  facções criminosas, dentro dos presídios e fora deles, sobretudo nas capitais do país.
     
    Ora,  tal estratificação sóciocultural, agravada pelas suas mazelas,  dá o que pensar e ainda torna mais  contraditória e complexa  a situação anômala do Estado  Brasileiro. Diante dessa   complexidade  de modos de ser de uma nação, é fácil de entender por que o pais não cresce harmoniosamente nos setores mais  vitais  a fim de que  se alcance  um melhoria significativa  que nos conduza a um  bem-estar   mais igualitário, mais humano, mais justo. Está aos olhos de quem tem experiência  que  o Brasil é vítima  de uma  perniciosa  concentração de renda, onde uns poucos vivem  como   qualquer rico de um pais adiantado ou não.  E tal concentração tende a aumentar à medida em que  os ventos  do capitalismo  global soprem com  a rapidez e fúria devastadora. 
       A avidez do lucro e da mais valia, da reserva de mercado  pandêmica nada deixam de pé na sua passagem  em busca   do lucro  e da acumulação de riqueza  unilateralmente. Da pobreza alheia dos anônimos, sempre desavisados  e inconscientes,  nasce a opulência dos  tycoons.   A riqueza não é subjetiva, mas é dura   qual  uma pedra. A objetividade é a sua falta de limite mais perseguido.
     Neste contexto  social  é que  o país  se situa  e define  o que  seja melhor  aos plantonistas dos  poderes  político e  econômico. Neste mesmo contexto é que os destinos da nação são traçados a peso de ouro (ou de propina deslavada e cínica).
    Ao mesmo tempo em que o país  está bem adiantado na burocracia  federal,  estadual ou municipal altamente  informatizada e,  por conseguinte,  controlando  todo os passos, por exemplo, dos servidores  públicos,  em outros setores também  públicos  tudo está mal  administrado,  mal gerido  e suscetível  de desvios  de verbas, peculatos e corrupção ativa ou passiva  crônicas, a despeito  de algumas vitórias  do Ministério Público e da Polícia Federal, os setores  como educação,  segurança, saúde e transporte estão, no geral,   deixando  ainda  muito a  desejar  no que concerne a benefícios sociais  prestados  ao  contribuinte  pelo  país afora.
     Afirmar-se, pelas mensagens de governantes, que o país está saindo  do sufoco  da recessão, que o consumidor está comprando mais e que a economia está retomando seu  rumo certo é uma meia-verdade,  porquanto ainda há muito que caminhar  na direção das correções cabíveis, a começar   das ações do próprio  governo federal que, à outrance,  teimam em  modificar  a Previdência Social sem  consultar  a população brasileira e sem um amplo debate entre ela e o governo.    
     Quando  um autoritário  e   soberbo  relator  do projeto de  reforma  previdenciária admite  em público que o país tem uma contingente   significativo de  idosos e nestes  em parte  põe a culpa  pelos  desatinos  do perdulário  governo  federal, ele está  desrespeitando  essa faixa  de aposentados que não tem  nenhuma responsabilidade  pelos  desastres   da administração   Temer e dos governos que  o antecederam. Ao contrário,  os aposentados do governo  federal foram penalizados com uma espécie de confisco obrigatório,  que foi o desconto, na folha de pagamento dos servidores, do que chamam de  “contribuição para  seguridade social  de aposentadoria,”  ou seja,  os servidores, que já descontaram  tanto no período  ativo,  quando aposentados,   sofreram essa redução compulsória nos seus vencimentos. Lembro, a propósito,  que  esse desconto para a seguridade social,  foi  efetivado no  bondoso governo  Lula.
    Enquanto o pais de contrastes   e, por tabela, de  desigualdades e injustiças, vai tecendo sua teia mefistofélica e draculiana de arbitrariedades e desídias  administrativas, a sociedade, cindida em vários sentidos, vai vivendo sua dolce vita felliniana dentro das divisões  firmemente  impostas  pelos donos do poder continuamente  realimentador    do status quo   desigual e  autoritário e com aparência de fazer  os tolos  pensarem que  tudo se está   mudando para o bem geral da nação  e do seu povo   “cordial” e pândego. 
   Em outras palavras, excetuando os miseráveis que nada podem,  os ricos continuarão ainda mais ricos e a classe média lato sensu se endividando  pelo  canto de sereia do consumismo,  vão, como podem, aguentando o tranco e eu a me lembrar dos versos do poeta da saudade: A vida é uma girândola  na alvorada/ao retinir dos   guizos de vidro da Folia/Evoé⁢ Evoé!⁢
    
  



domingo, 21 de janeiro de 2018

DONALD TRUMP NA PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

                                          


                                                                       Cunha e Silva Filho



     Como no Brasil, a sociedade  norte-americana está clivada. De um lado  os que  apoiam o governo  Trump, os nacionalistas, os racistas, os preconceituosos, os  inimigos dos imigrantes, até daqueles que já constituíram famílias nos território americano. De outro lado,  os seus adversários que, junto às vozes dos  imigrantes,  desejam  viver num país aberto  e democrático. Trump fez um ano de sua   desastrosa  administração  questionada  por muita gente  fora dos Estados Unidos, que não aprova nada do que tem feito  o trapalhão Trump (aliterei  sem querer).
    Praticando  um  nacionalismo estreito e    perigoso – haja vista o ameaçador período de Guerra Fria após o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) vivido entre russos e americanos -  e tendo  sua  vitória   envolvida  com uma suposta  ajuda   do governo  russo temperada com  espionagem e traição, o que, por si só, soa estranhamente   mal a um país que nunca  foi  tão  próximo  da política  russa, Trump, nesse  breve período de (des)governança, tem infernizado   a vida   de muitos americanos, sobretudo  de imigrantes.         
   Trump, que não tem  preparo intelectual e político  algum  para ser presidente de uma nação do porte dos Estados Unidos, tem tudo feito para desagradar grande  parte dos americanos natos e dos imigrantes, agora chamados de dreamers (sonhadores)  lutando, a todo custo,  a fim de  permanecerem  no país  que já teve  grandes e  honrados presidentes, como, só para mencionar um exemplo,  o grande Abraham Lincoln. Como o nível de presidentes  americanos caiu tanto ao ponto de  levar ao posto mais  alto da nação um  magnata,  xenófobo,   sem perfil  para exercer  a função  a que o alçaram   para a infelicidade  de tantos na América!
 Desejando, sem responsabilidade, desconstruir   algumas conquistas sociais  alcançadas por  Obama, sendo a mais badalada  o  sistema de plano de saúde universal, beneficiando, assim,  os mais  desfavorecidos,  Trump tem-se distinguido apenas por  atitudes  e ações  impensadas e desconexas. Um jornalista brasileiro  com razão  já o comparou a uma criança. Eu diria a uma  criança  mimada, cheia de caprichos que parece estar brincando de presidente para  motejo dos povos civilizados.  
   A meu ver, Trump governa de improviso, atabalhoado, sem direção, ou melhor,  em direções  perigosas, diz  besteiras,  usa de fake news nas redes sociais e tem  projetos mal formulados  que só agravarão ainda mais  a imagem dos  Estados Unidos  mundo afora. Não vejo muito futuro no seu mandato a menos que dê uma guinada  saudável abdicando de seus  planos  controversos  e  prejudiciais ao povo. Diria: ainda é tempo, Sr. Presidente,  de  começar  seu  governo  from  scratch, voltando a   sua atenção à convergência e não à divisão de uma sociedade multifacetada  como a americana.
    Sua ideia de construção de um muro separando (modelado  a  ideias nazifascistas do Muro de Berlim, o “Muro da Vergonha”)  o seu  país do México é estapafúrdia e vai na contramão das conquistas  de direitos humano  dos  tempos atuais tão necessitados de paz, união e solidariedade entre os povos.
    Não pense que,  insuflando a divergência e a desunião da sociedade americana  vai  conseguir  realizar  uma administração boa   que possa tornar  o EUA uma nação acolhedora que trate  os imigrantes e os estrangeiros  de forma  civilizada, com respeito e dignidade, não  revistando  pessoas  só porque não sejam  brancas, de olhos azuis e cabelos lisos.
    O Sr. não vai  colher bons frutos de seu governo  chamando nações mais pobres  de países "de merda." Nada disso,  é pela compreensão  que o Sr.  vai  unir os  americanos, quer   os adeptos de suas ideias  nacionalistas  e retrógradas, quer   os que  estão a favor  de uma sociedade  mais igualitária,  não aquela com  que  conduz a sua vida de  milionário e capitalista   empedernido.
   Trump não deve perder  de vista aquele velho   lema  que dizia ser os EUA the land of  opportunity (terra  da oportunidade). Obama governou o país  numa direção bem mais democrática e com  objetivos   centrados  nos mais humildes e numa nação  mais humana. Ele próprio, sendo o primeiro  presidente negro,  foi exemplo de que os americanos   também  são contra qualquer forma de apartheid. Tal demonstração dos americanos é prova inconteste de que esse povo empreendedor historicamente tem um passado   de que seguramente se orgulha.
   Se Trump conhecesse as biografias de um George Washington, de um  Lincoln, de um Jefferson, de uma Benjamin Franklin, de um  Franklin Delano Roosevelt  certamente  teria  uma visão  séria,   madura  e responsável  da qual tiraria  lições de como  conduzir  uma nação com acerto, com  espírito democrático e com a aprovação da grande maioria do  povo americano.
 Todavia, Trump não quer uma biografia  honrada, reverenciada  e  aclamada  livremente  pela  nação,  cuja índole é ter sido, até agora,  democrática.   
  Expulsar  aleatoriamente  imigrantes  que há tanto tempo  moram  no pais,  prender   autoritariamente  pessoas  com aparência de  imigrantes,  infelicitando tantas famílias bem formadas e adaptadas às leis americanas,  pessoas que  já deram  sua contribuição ao progresso dos EUA  não é a maneira  justa e  democrática de tratar  imigrantes.
  As passeatas,  manifestações contra o autoritarismo do governo Trump são sinais evidentes de que ali não estão  pedindo   algo  que tipifique   qualquer  infração  à Constituição  dos EUA. 
   Reivindicam  esses imigrantes apenas o que  por justiça lhes cabe  reclamar: o  direito e a vontade de viver  na América, alguns com filhos já fluentes em inglês e  com  hábitos  adquiridos  por qualquer americano  nato e branco.   
  O presidente Trump deveria ter em mente  que não se governa apenas para os  ricos e os influentes.  A sociedade, embora com níveis de renda  diferentes, segundo   o sistema capitalista, nem por isso deve   cair no erro   imperdoável de  tratar  com desprezo os imigrantes. Além disso,  os EUA  são  historicamente um país de imigrantes e é por essa razão  que Trump deveria, se quiser continuar no poder,   mudar  suas  posição  de  considerar  o estrangeiro, o de fora como  se todo  mundo  fosse terrorista,  bandido  e cidadão de segunda categoria.